sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A GRANDEZA DAS ESCRITURAS PARTE 4



ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
CAPÍTULO I - DAS SAGRADAS ESCRITURAS.

Prof. Rev. João Ricardo Ferreira de França.


IV – A AUTORIDADE DAS ESCRITURAS SAGRADAS I .
Seção IV A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus.
Ref. II Tim. 3:16; I João 5:9, I Tess. 2:13.
            O que significa a doutrina da Autoridade das Escrituras? O que este vocábulo quer nos dizer? Packer vai nos dizer que a autoridade das Escrituras “repousa na inspiração”[1] mas, o que significa essa autoridade? Esta é a questão que precisamos responder.
            A declaração da Confissão de Fé de Westminster é clara em nos oferecer uma definição precisa do que seja a Autoridade das Escrituras. Notemos que se figura aqui a ideia de que esta autoridade não derivada de homem algum ou de qualquer igreja; mas, de Deus ser a própria verdade.
            Significa que toda a Palavra de Deus conforme está registrada é inerrante, e, não possuem erros em nada do que se propõe dizer e ensinar, por isso, deve ser aceita como autoridade suprema na vida e no culto do povo de Deus.
         4.1 – É UMA DOUTRINA ATESTADA POR CRISTO:
            No Novo Testamento temos Cristo falando a favor desta doutrina da autoridade das Escrituras. Cristo sempre apelou para as Escrituras como a um tribunal supremo.
            Em qualquer controvérsia ele usava a expressão “está escrito” indicando que a palavra final deve ser dada a Palavra inspirada por Deus. Vejamos isso detalhadamente em Mateus 4.4,6,710:
Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra. Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.
            Cristo ao usar a expressão “está escrito” usa um verbo grego “ge,graptai” – gégraptai –é um verbo no perfeito que indica uma ação contínua, significando “permanece escrito”, então, o Senhor Jesus está apelando para a autoridade da Bíblia como fonte autorizada da verdade; Satanás utiliza a mesma expressão reconhecendo tal autoridade, todavia, vale-se de uma interpretação distorcida para tentar enganar o Cristo, mas o Jesus novamente diz “permanece escrito” que não se deve tentar a Deus.
            Outro texto onde contemplamos Cristo fazendo defesa desta autoridade das Escrituras é quando ele busca corrigir os erros dos escribas e fariseus de seu tempo em Mateus 22.29: “Errais, não conhecendo as Escrituras”; todavia, o texto que podemos ver claramente a defesa da autoridade bíblica provinda dos lábios de Cristo é aquele de João 10.35: “E a Escritura não pode falhar”.
            No texto de João 10. 35 nos chama a atenção o verbo “falhar” no grego temos “luqh/nai”- lythênai – é um verbo usado para descrever a quebra do sábado (Lucas 13.16), a ideia é de quebrar, ser quebrada, ou mesmo de ser diminuída a sua importância e valor. Cristo diz que toda a Escritura é a autoridade na vida da Igreja.[2]
            4.2 – É UMA DOUTRINA ATESTADA PELOS APÓSTOLOS DE CRISTO:
            O Apóstolo Paulo atesta sobre a autoridade da Palavra de Deus ao declarar que os crentes de Tessalonicenses acataram a verdade por ele pregada, “não como palavras de homens, mas como palavra de Deus”( 1 Tessalonicenses 2.13).
            E, ainda o Apóstolo Pedro reconhece os escritos de Paulo como escritos cheios da autoridade do próprio Deus, ao colocar as cartas de Paulo no mesmo patamar das “demais Escrituras” (2 Pedro 3.15-16) Pedro reconhece a autoridade do Antigo e do Novo Testamento.
            4.3 – A NEGAÇÃO DA AUTORIDADE DAS ESCRITURAS:
            A autoridade das Escrituras tem sido solapada de diversas formas. E, sendo assim precisamos identificar essas formas para que possamos fazer uma apologética segura da Bíblia como nossa autoridade suprema. Nós só podemos identificar tais perigos se oferecermos a resposta correta à velha pergunta: O que é a Palavra de Deus?
             E a resposta deve ser: “As Escrituras Sagradas – o Velho e o Novo Testamento – são a Palavra de Deus, a única regra de fé e prática”[3]
            Diante desta definição podemos podemos ver a presença de quatro inimigos da Autoridade Bíblica na igreja em nosso presente século.
            A) O DISPENSACIONALISMO:
            A primeira negação da autoridade bíblica, é o “Dispensacionalismo” ou como foi conhecido nos anos anteriores, e ainda em tempos atuais, o “Antinomianismo” que sustenata a ideia de que o Antigo Testamento passou e que agora só temos o Novo Testamento para basear a nossa fé.
            O catecismo, na citação que fizemos acima, nos mostra que tal idéia  não tem fundamentação teológica, pois o catecismo nos informa que “o Antigo e o Novo Testamento” , ou seja, ambos são a Palavra de Deus; o Novo não é mais Palavra de Deus que o Antigo, e nem o Antigo é menos Palavra de Deus que o Novo, mas que ambos, formando uma unidade na mensagem cristã, são a Palavra de Deus.
            Quando se nega a unidade das Escituras se lhe diminui autoridade , e mais se coloca em contraposição o Antigo e o Novo Testamento levando toda a Escritura se contradizer.
            B) A NEO-ORTODOXIA E O LIBERALISMO TEOLÓGICO.
            A autoridade das Escrituras é solapada pela , “Neo-ortodoxia”, e pelo  “Liberalismo teológico”. O primeiro sistema ensina que a Bíblia não é a Palavra infalível de Deus, mas que apensa contém a Palavra de Deus, ela se transforma em Palavra quando leio, ou quando escutamos algum sermão a nós dirigido com base na Bíblia. 
            No segundo sistema a Bíblia não é de modo algum a Palavra infalível de Deus, pois, segundo pensam, está cheia de mitos e contos que não condiz com a razão do homem, e por isso, não pode ser autoridade final e deve ser apenas usado como um livro de ética e moral – nada mais do que isso. Todavia, o Catecismo diz:”...o Velho e o Novo Testamentos são a Palavra de Deus...” não existe espaço para a noção de que a Bíblia venha a se tornar a Palavra de Deus. (2 Timóteo 3.16-17).
            Paulo declara que “toda a Escritura É divinamente inspirada”, ela não se torna e nem contém, ela é toda a revelação proposicional de Deus aos homens.[4]
            C) O TRADICIONALISMO
            O terceiro ataque à autorida bíblica vem do “Tradicionalismo católico Romano” que entende que a tradição eclesiástica é superior a Bíblia. Negando assim, a autoridade final das Escrituras e a sua suficiência.
            O Senhor Jesus falou muito bem contra tal ataque, pois, quando a tradição está acima da Palavra de Deus o que resta é a transgressão á Lei de Deus conforme vemos em Marcos 7.7-13:
E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Vós, porém, dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o Senhor, então, o dispensais de fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou de sua mãe, invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras coisas semelhantes.
            A tradição quando contrária a Lei de Deus ela nos leva pra longe dele. Precisamos entender que
As tradições, antigas, que foram testadas pelo tempo e que carregam consigo a sabedoria de uma raça, trazem profundidade e perspectiva para os dias em que a vida, frequentemente, se mostra sem raízes, superficial e banal[5]
            É disso que estamos tratando, a Bíblia e a tradição (vista como o testemunho da Igreja) devem andar juntas, nós precisamos ouvir a ambas ou como coloca sabiamente um autor reformado presbiteriano:
A Bíblia sozinha seria a religião dos protestantes. O problema é que a Bíblia nunca está sozinha. O próprio Calvino, que falou da autoridade da Bíblia nos termos mais elevados, sempre leu-a e ouviu-a segundo as tradições. Sua revisão litúrgica foi feita de acordo com as práticas da Igreja Antiga, o mesmo sucedendo com a organização eclesiástica por ele desenvolvida[6] ().
            Então, podemos ler a Bíblia com as tradições, o problema encontra-se quando as tradições estão se opondo à Bíblia. A Igreja é a coluna e baluarte da verdade (1 Tm.3.15). E vivemos uma época em que a história da igreja (que funciona como testemunho para nós) tem sido negligenciada, mais uma vez Leith nos adverte para isso:
Os protestantes têm sido sempre tentado a crer que, de alguma forma, podem ignorar todos os séculos da história cristã, estudando a Bíblia sem ajuda e os embaraços dos que os antecederam. Na verdade, porém, aqueles que se recusam a ler a Bíblia à luz das tradições da Igreja acabam sendo dominados pelas suas próprias tradições históricas e culturais[7]
            D) O PENTECOSTALISMO
            O quarto e último perigo à autoridade da Bíblia é, o conhecido sistema “Pentecostal” que nega a autoridade da Bíblia e a sua suficiência, quando sustenta a crença de existência de novas revelações supostamente produzidas pelo Espírito Santo; a isso o catecismo responde da seguinte forma, resposta esta que vale para os dois últimos sistemas acima mencionados: “As Escrituras Sagradas...são a única regra de fé e prática”. Ou seja, a vida cristã não é regida por tradicionalismo, nem pelo misticismo que aflora no pentecostalismo.
            A definição do Catecismo prioriza a questão da autoridade final quando afirma que as Escritura é suprema em todas as coisas. Na vida, na igreja, na sociedade, na ciência nela não existe erro ou contradição.

            Então, o que há de errado em nossa cultura pós-moderna? Há um grande afastamento dos padrões de Deus em nossa sociedade atual, a Bíblia tem sido questionada em nossos dias. Na história da igreja entendemos que “a igreja sempre aceitou os 66 livros como canônicos”[8].





[1]PACKER, James I. Vocábulos de Deus. São Paulo: FIEL, 2002, p.33.
[2] SCHWERTLEY, Braian. O Modernismo e a Inerrância Bíblica.  Tradutora: Denise Meister. Recife: Os Puritanos, 2000, p.30-31
[3] Catecismo Maior de Westminster, resposta à pergunta 3.
[4] SCHAEFFER, Francis A. O Deus que se Revela. Tradutora: Gabrielle Greggersen. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p.129-135.
[5] LEITH, 1999,p.7
[6] LEITH, Op. Cit,p. 20
[7] Idem
[8] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.65.

sábado, 13 de outubro de 2012

A GRANDEZA DAS ESCRITURAS TERCEIRA PARTE

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
CAPÍTULO I - DAS SACRADAS ESCRITURAS.

Prof. Rev. João Ricardo Ferreira de França.


III  - O CÂNON DAS SAGRADAS ESCRITURAS.

SEÇÃO III – Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos.
Ref. Luc. 24:27,44; Rom. 3:2; II Pedro 1:21.
            Esta é mais uma daquelas estupendas declarações da Confissão de Fé de Westminster. Aqui nesta seção vamos trabalhar vários conceitos do tipo: o que é um livro apócrifo? O que se refere a doutrina da canonicidade? Quais os critérios usados pela igreja para se chegar ao cânon que possuímos?
            Estas e outras questões nós abordaremos aqui neste estudo. Pois, é de suma importância para a Igreja entender adequadamente a doutrina aqui enunciada.

1. A DOUTRINA DA CANONICIDADE DAS ESCRITURAS.

            O que significa o termo “cânon”? Geralmente se entende que a Escritura é o “Cânon” de nossa fé. A formação e a estrutura da Bíblia para nós requer que procuremos uma definição simples, todavia, clara e profunda do que o conceito encerra.
            A palavra “cânon” é uma mera transliteração do termo grego “kanw,n” – kanôn – que significa vara reta, régua, regra. É uma palavra usada com referência para indicar a autoridade suprema da Bíblia sobre a vida dos cristãos. Ou seja, refere-se aos livros que compõem a Bíblia conforme conhecemos.[1]
          Uma definição mais lexical nos informa que a origem da palavra “cânon” é derivada
de uma de uma raiz semítica [assírio Qanû; ugarítico:Qn; hebraico: hn<q;)( (Qâneh) ocorre 61 vezes no Antigo Testamento e é sempre empregada no sentido literal (veja-se 1 Rs 14.15; Jó 40.21; Is 36.6; 42.3; Ez 40.3,5,7), significando ‘cana’ (planta que era usada para medir e pautar) “balança” (Is.46.6) e também ‘a cana para trançar os cestos, ou bastão reto[2]
Tomando por empréstimo podemos dizer que a palavra “Cânon” indica a nossa regra, o nosso limite e ainda mais, o nosso padrão; sendo todos estes sentidos aplicados à Palavra de Deus.

1.1 – A Estrutura Canônica do Antigo Testamento

            A Bíblia possui, dentro de sua disposição canônica, oito seções, sendo quatro no Antigo Testamento e quatro no Novo Testamento.[3] Vamos no deter neste momento sob o Antigo Testamento e a sua estrutura canônica, sua formação e sua disposição no que respeita aos livros e classificações:

Livros do Antigo Testamento
A lei (Pentateuco) – 5 livros
Poesia – 5 livros
1. Gênesis
2. Êxodo
3. Levítico
4. Números
5. Deuteronômio
1. Jó
2. Salmos
3. Provérbios
4. Eclesiastes
5. O Cântico dos Cânticos
Historia – 12 livros
Profetas – 17 livros
 1. Josué
 2. Juízes
 3. Rute
 4. 1Samuel
 5. 2Samuel
 6. 1Reis
 7. 2Reis
 8. 1Crônicas
 9. 2Crônicas
10. Esdras
11. Neemias
12. Ester
A. Maiores

1. Isaías
2. Jeremias
3. Lamentações
4. Ezequiel
5. Daniel
B. Menores

 1. Oséias
 2. Joel
 3. Amós
 4. Obadias
 5. Jonas
 6. Miquéias
 7. Naum
 8. Habacuque
 9. Sofonias
10. Ageu
11. Zacarias
12. Malaquias

          A tabela apresenta acima mostra a disposição dos livros conforme aprecem em nossa Bíblia, esta é a atual estrutura canônica das Escrituras conforme temos na Escritura Protestante (evangélica. Esta divisão foi ocasionada devido a influência da versão grega do Antigo Testamento conhecida como Septuaginta (LXX), conforme nos diz dois estudiosos:
A divisão do Antigo Testamento em quatro seções baseia-se na disposição dos livros por tópicos, com origem na tradução das Escrituras Sagradas para o grego. Essa tradução, conhecida como a Versão dos septuaginta (lxx), iniciara-se no século III a.C. A Bíblia hebraica não segue essa divisão tópica dos livros, em quatro partes. Antes, emprega-se uma divisão de três partes, talvez baseada na posição oficial de seu autor. Os cinco livros de Moisés, que outorgou a lei, aparecem em primeiro lugar. Seguem-se os livros dos homens que desempenharam a função de profetas Por fim, a terceira parte contém livros escritos por homens que, segundo se cria, tinham o dom da profecia, sem serem profetas oficiais..[4]
          Paulo Anglada chama a nossa atenção exatamente para isso quando diz: “Embora o conteúdo canônico protestante seja o mesmo do cânon hebraico, a divisão e a ordem dos livros são diferentes”[5] conforme vemos no quadro abaixo:

Disposição dos livros do Antigo Testamento hebraico
A lei
(Tora)
Os profetas
(Nebhiim)
Os escritos
(Kethubhim)
1. Gênesis
2. Êxodo
3. Levítico
4. Números
5. Deuteronômio
A. Profetas anteriores
1. Josué
2. Juízes
3. Samuel
4. Reis

B. Profetas posteriores
1. Isaías
2. Jeremias
3. Ezequiel
4. Os Doze
A. Livros poéticos
1. Salmos
2. Provérbios
3. Jó
B. Cinco rolos (Megilloth)
1. O Cântico dos Cânticos
2. Rute
3. Lamentações
4. Ester
5. Eclesiastes
C. Livros históricos
1. Daniel
2. Esdras-Neemias
3. Crônicas

            Essa disposição é confirmada no Novo Testamento pelo próprio Senhor Jesus em Lucas 24.44

1.2 – A Estrutura Canônica do Novo Testamento

            Podemos dizer que a estrutura e organização do Novo Testamento são simples. Conforme podemos ver no quadro abaixo:
Livros do Novo Testamento
Evangelhos
História
1. Mateus
2. Marcos
3. Lucas
4. João
1. Atos dos Apóstolos
Epístolas
 1. Romanos
 2. 1Coríntios
 3. 2Coríntios
 4. Gálatas
 5. Efésios
 6. Filipenses
 7. Colossenses
 8. 1Tessalonicenses
 9. 2Tessalonicenses
10. 1Timóteo
11. 2Timóteo
12. Tito
13. Filemom
14. Hebreus
15. Tiago
16. 1Pedro
17. 2Pedro
18. 1João
19. 2João
20. 3João
21. Judas
Profecia
1. Apocalipse


2. CRITÉRIOS PARA A CANONICIDADE.

            A questão de se ter um cânon é: como saber se os livros do Novo Testamento que temos são os verdadeiros?  Eis ai a nossa questão.
            Quando no inicio do primeiro século começou a surgir uma variedade de livros arrogando-se serem os livros verdadeiros do cristianismo. A igreja se viu na obrigação de dizer quais livros eram divinos ou não; e por isso, se estabeleceu critérios pertinentes para se avaliar tais livros.


2.1 – Apostolicidade.
            Este é o primeiro critério estabelecido. Um livro para ser reconhecido como regra na vida da Igreja deveria ter sido escrito por um apóstolo ou por alguma pessoa ligada ao mesmo. Por exemplo, João Marcos (autor do evangelho de Marcos) não fora apóstolo, mas a tradição informa que Marcos fora “o intérprete de Pedro”[6]; esse critério era pertinente para evitar grotescos abusos que estavam sendo feito pelos inimigos da verdade.
2.2 – Leitura Eclesiástica.
            O segundo critério aponta para o fato de que os livros canônicos seriam reconhecidos também, por meio da leitura litúrgica de tais livros. Se a igreja sempre usou aquele referido o mesmo este deveria ser coloca na lista canônica. Este critério pode ser encontrado na própria escritura em Colossenses 4.16 e em 1 Timóteo 4.13.
            Um exemplo deste fato pode ser visto na apologia de Justino ao descrever o que ocorria em culto eucarístico:
E no dia chamado Domingo, todos quantos moram nas cidades ou no interior reúnem-se juntos num só lugar, são lidas as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, por tanto tempo quanto possível; depois, tendo terminado o leitor, o presidente instrui verbalmente, e exorta à imitação dessas coisas virtuosas. Em seguida, todos nos colocamos de pé e oramos e, conforme dissemos antes, ao terminarem as nossas orações são trazidos pão, vinho e água, e o presidente, de modo semelhante, oferece orações e ações de graças, segundo a sua capacidade, e o povo concorda dizendo amém.[7]

2.3 – A Harmonia Doutrinária
            Um livro para se canônico deveria ensinar fundamentado no que já havia sido estabelecido; ou seja, se um livro ensinasse algo contrário aquilo que os apóstolo e a sabedoria da Igreja sempre ensinou deveria se rejeitado como sendo um livro não-canônico.
            Estes são os três fundamentais critérios para a questão do Cânon do Novo Testamento, e sem eles nada podemos ensinar pregar, ou mesmo defender o evangelho.

2.4 – A Inspiração
            O que significa Inspiração? O termo é impróprio para aquilo que visa designar. Isto porque o termo não seria inspiração (soprar para dentro), mas expiração (soprar para fora); pois, foi isso que Deus fez conosco.
            O que entendemos por inspiração “como sendo a influência sobrenatural do Espírito de Deus sobre os homens separados por ele mesmo, a fim de registrarem de forma inerrante e suficiente toda vontade de Deus, constituindo esse registro na única fonte e norma de todo o conhecimento cristão” [8]
            De acordo com o Novo Testamento a doutrina da inspiração diz respeito a Deus soprar a sua revelação nas páginas das Escrituras (2 Timóteo 3.16). O leitror deve também saber que existem várias teorias a respeito da inspiração.
2.4.1 - Concepção de Inspiração Dinâmica:
            Algumas pessoas acham que a doutrina da Inspiração consiste em um ditado. Onde Deus dinamicamente falou ao escritor sagrado palavra por palavra, ponto por ponto de toda a Bíblia.
            Essa concepção ignora a existência de estilos variados nas Escrituras que negam a possibilidade de um ditado. E a Escritura é clara quanto a existência de estilos literários de cada escritor da mesmo, e, nós vemos isso na em 2 Pedro 3.13-16. Pedro reconhece que Paulo tem um estilo próprio ao escrever suas cartas.
2.4.2 - Concepção de uma iluminação:
            Outra ideia equivocada que geralmente ouvimos é que inspiração é a mesma coisa que iluminação. Sendo apresentado a ideia de que os autores humanos das Escrituras fossem apenas homens iluminados e nada mais do que isto.
2.4.3 – A Concepção da Inspiração Plenária:
            Devemos acreditar que a inspiração das Escrituras está em toda a Bíblia, não são algumas partes que são inspiradas e outra não. O conceito de Inspiração Plenária. Desde o Gênesis até o apocalipse, tudo o que foi registrado, foi por vontade de Deus (2 Timóteo 3.16; 2 Pedro 1.20-21)[9]
2.4.4 – A Concepção da Inspiração Verbal:
            Esta concepção deve ser aceita como verdadeira, pois, entendemos que Deus falou sua palavra por meio dos autógrafos originais a sua mensagem. (2 Samuel 23.2; Jeremias 1.9; Mateus 5.18; 1 Coríntios 2.13).

3. A DOUTRINA DA CANONICIDADE E OS APÓCRIFOS

            A doutrina do Cânon inevitavelmente nos levará para a questão dos livros chamados de “Apocrifos”. O que é um livro apócrifo? Na concepção popular é um livro duvidoso. O termo vem do grego e significa “sem assinatura”, ou seja, não possui  assinatura de Deus. Também o termo pode ser entendido como “oculto”. Indicando a não identificação de sua autoria.[10]
            Por que eles são classificados nesta categoria de livros sem assinatura? A resposta pode ser apresentada em duas nagativas consistentes conforme aprendemos aqui nesta seção da Confissão de Fé “Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura”.
3.1 - Por não serem inspirados não tem autoridade sobre a Igreja.
            Aqui nós aprendemos que somente os livros canônicos podem ter autoridade de governo e doutrina sobre a vida da Igreja, toda doutrina fundamentada em um livro não autorizado canonicamente é uma heresia. Eles não devem ser usados como livros autoritativos na vida do povo pactual de Deus.


3.2 – Devem ser empregados como meros livros humanos.
            O segundo aspecto que devemos levar em consideração é o fato de que tais livros podem ser úteis pelo conhecimento que transmitem. A Confissão de Fé de Westminster diz que tais livros  “não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos. ”.
            Nós devemos ler estes livros apócrifos, estudá-los buscar compreendê-los, mas meramente como livros humanos. Paulo Anglada nos traz uma palavra positiva sobre este tema:
Alguns dos apócrifos são realmente úteis como fontes de informação a respeito de uma época importante da história do povo de Deus: o período inter-testamentário. Os protestantes reconhecem o valor histórico dele. Seguindo a prática dos primeiros cristãos, as edições modernas protestantes da Septuaginta normalmente incluem os apócrifos , e até algumas bíblias protestantes antigas os incluíam, no final, apenas como livros históricos.[11]

Conclusão: O cânon das Escrituras nos foi dado para ser a nossa única regra de obediência e prática; isto implica no fato de que as Escrituras conforme temos não é fruto da tradição dos homens, mas da vontade de Deus que deseja orientar-nos por meio de suas palavras registradas de forma clara e compreensível aos homens.




[1] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.33-34.
[2] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.18-19
[3] GEISLER, Norman L.  &  NIX,  William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia  chegou até nós. Tradutor: Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida, 1997, p.7

[4] GEISLER, Norman L.  &  NIX,  William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia  chegou até nós. Tradutor: Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida, 1997, p. 8
[5] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.35.
[6] Eusébio de Cesárea, Apud, COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.39.
[7] MÁRTIR, Justino. Primeira Apologia, Cap. 67, In: Ante-nicene Fathers, p.69. [ênfase nossa]
[8] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.98.
[9] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.99.
[10] O surgimento dos livros apócrifos deve-se ao período intertestamentário, onde houve um silencio profético de 400 anos a.C, o homem na ansiedade de ouvir uma voz profética decidiu escrever obras nas quais tencionava dizer que Deus estava se revelando ao seu povo. O silêncio profético compreende de Malaquias até Mateus.
[11] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.41.