quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

EXPOSIÇÃO DE 1ª JOÃO 1.1-4

AS VERDADEIRAS CARACTERÍSTICAS DA MENSAGEM DO EVANGELHO:
UMA ABORDAGEM EXEGÉTICA DE 1ª JOÃO 1.1-4.
Rev. João Ricardo Ferreira de França*

O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida  2 (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada),  3 o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.  4 Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa.

Introdução:
Muitas vezes lemos a 1ª epístola de  João tendo a noção de que ela versa sobre o amor a Deus; todavia, tal ponderação, ainda que verdadeira, não reflete necessariamente todo o conteúdo da carta. E analisando a mesma de uma forma mais detalhada podemos dizer que há pontos nela que continuam a ser negligenciados pela Igreja.
A teologia Bíblica se insere em nosso contexto como uma resposta aos desafios que a sistematização das Escrituras parece sugerir. A revelação neotestamentária precisa ser entendida e avaliada para que haja uma apologética cristã; uma catequização sólida e por fim, haja uma aplicação prática da Palavra de Deus em nossa época e para o nosso povo. Esta é de fato a tarefa do teólogo Bíblico (como exegeta que deve ser). O presente estudo visa trabalhar questões no campo da teologia exegética visando ajudar aos leitores na compreensão da Palavra de Deus. Visando assim uma valorização pelo evangelho e a sua mensagem.
         O trabalho que leitor tem em suas mãos destina-se a avaliar o ensino do apóstolo João sobre a mensagem da encarnação de Cristo e qual a sua relevância para a vida da Igreja cristã ao longo dos séculos.
         A motivação para lidar com texto de 1 João 1.1-4 surgiu quando trabalhando com exposição bíblica seqüenciada observamos que havia duas posições que se inseriam na interpretação do texto citado, uns diziam que a temática destes versículos vinculava-se a pessoa de Cristo e não a mensagem sobre a sua encarnação; outros sugeriam que tratava-se apenas da mensagem do evangelho de Cristo. Então, dentro de nossas limitações, optamos em trabalhar este texto – curiosamente percebemos que o texto trabalha as implicações da verdadeira mensagem do evangelho que se fundamenta na encarnação de Cristo.
         As implicações extraídas exegeticamente deste texto vislumbram uma visão global da vida cristã, pois, a universalidade da epístola sugere isso. O evangelho e sua mensagem fundamentam-se no testemunho ocular dos apóstolos; na certeza da encarnação visando promover a comunhão entre a Igreja, os apóstolos e o Deus Trino.
ELUCIDAÇÃO:
A) Autoria:
Quem é o autor desta tão singular carta? Esta tem sido a pergunta que muitos têm levantado concernente a presente epístola. Há muita discussão sobre este assunto. Onde buscar informações confiáveis para se estabelecer à autoria desta carta? O teólogo John R.W.Stott nos diz que “o lugar natural onde buscar informações sobre alguma epístola antiga, é a própria epístola”. Este tem sido o pensamento dos teólogos conservadores no que diz respeito à análise de algum documento neotestamentário.
1. Evidências Externas:
A primeira classe de evidências que podemos apresentar é a classe das evidências externas, ou seja, provas fora da própria epístola. No que diz respeito à autoria um escritor nos informa que “Policarpo, discípulo de João cita 1 Jo 4.3, em sua Carta aos Filipenses”[1] E ainda  Eusébio diz, na sua História Eclesiástica[2],que Papias, Ouvinte de João e Amigo de Policarpo,citava esta carta como sendo da lavra de João,o apóstolo. Irineu cita esta carta com abundância em sua obra Contra as Heresias[3]. “Orígenes é um dos primeiros a advogar a autoria desta epístola como sendo da pena do apóstolo João. Clemente de Alexandria diz que esta é maior das cartas de João”.[4]
2. Evidências Internas:
A segunda classe de evidências é aquela que chamamos de interna, ou seja, dentro da carta procuramos indícios de quem tenha de fato sido o autor da referida epístola. A maioria dos comentaristas sustenta que há uma certa e profunda relação desta epístola com a obra literária de João, o Apóstolo, talvez o quadro abaixo nos ajude a entender isso:
Evangelho
I João
II João
III João
2.24
4.1-3
7
1
8.31
3.18
1
1
10.18
4.21
4
3
13.34
2.7
5

14.21
5.3
6

15.11;16.24
1.4
12,13
13,14
21.24


12

B) Local e Origem da Carta:
A questão que se levanta diante de nós é onde esta carta foi escrita? O teólogo Merril C.Tenney diz que “são indeterminados o tempo exato e o local onde foram compostas estas cartas, mas a opinião mais aceitável é que estes documentos forma escritos por João para envio às igrejas asiáticas..”.[5] Um outro erudito nos fornece a seguinte informação: “Tradicionalmente, todas as três epístolas ‘joaninas’, bem como o evangelho de João, têm estado associados a Asia Menor, particularmente à cidade de Éfeso”[6]
Alguma evidencia apontam para isso:
1)      Policarpo nos informa que João tinha uma residência em Éfeso.
2)      Irineu informa que João não desejava ficar sobre o mesmo teto com Cirinto, que era adversário da verdade, e por isso, foi morar em Éfeso e ali, segundo Irineu, João escreveu o seu evangelho para combater os hereges.

C) Destinatários:
            Para quem João escreve esta epístola? Esta tem sido a grande pergunta dos circulos acadêmicos. Um grupo de euriditos afirma que a “primeira epístola não menciona nenhum destinatário e não preserva nenhuma saudação, nem agradecimento formal ou outros detalhes formais que normalmente caracterizariam uma carta do século I”[7] Parece-nos que não há nada em toda a carta que nos direcione a uma posição dogmática quanto ao destino da carta.
            Um erudito diz que “todas as três epístolas de João parecem ter sido endereçadas às comunidades cristãs da Ásia Menor,vários membros das quais eram conhecidas pelo autor sagrado”.[8] Isso é importante para termos em mente que João tinha um coração tremendamente pastoral para com aquelas comunidades que ali estavam lutando pela verdade de Deus. “A tradição universal é que foram (as cartas) enviadas à uma província romana da Ásia, território modernamente conhecido como a Turquia”.[9]
            Carson nos apresenta uma verdade bastante singular sobre a questão do destinatário desta epístola dizendo que “a destinação geográfica não pode ser mais do que uma interferência apartir daquilo que é reconstruído do local de origem dos documentos.Por esse motivo essas epístolas foram enviadas a igrejas (e a um individuo) localizadas na região de Éfeso, inclluindo talvez, o território abrangido pelas sete igrejas do Apocalipse (2-3)”.[10]
Os eruditos do Novo Testamento debatem entre si sobre a questão da data deste escrito. Que data João Escreveu esta carta? É uma indagação pertinente para o entendemos em que período o autor desta carta estava inserido.
            Carson admite que “é impossível ter certeza a esse respeito” e por quê? Ele diz que a questão está no fato que “a decisão depende, em última instância, do entendimento que se tem dos propósitos respectivos do quarto evangelho”, e assim, teremos os propósitos das epístolas estabelecidos,[11] sendo assim, a questão da data depende de como entendemos a mensagem do quarto do evangelho. E a grande dúvida reside em quem foi escrito primeiro, se foi o evangelho ou as epístolas? Adotamos a postura de que as epístolas foram escritas posteriormente ao quarto evangelho.
            Alguns dizem que esta epístola poderia ter sido escrita no período de 85 a 90 d.C esta tem sido a data mais aceita dentro dos círculos acadêmicos conservadores. Esta parece ser uma data salutar para a carta em apreço. Embora exista algum erudito como Robinson que afirma não existir “uma necessidade absoluta de se datar os escritos joaninos  para depois de 70 d.C.”[12] A heresia do gnosticismo que estava rondando a igreja cristã do primeiro século força-nos a rejeitar a data de 90 , ficando, assim, com a data antes de 70  d.C[13]

D) Propósito da Carta:
            Qual é o propósito desta carta? Broadus diz que é “claramente, advertir os leitores acerca do perigo, para a fé cristã, das atividades e ensinos de homens heréticos...Contra três aspectos da heresia, João enfatiza  muito fortemente a três marcas do cristianismo autêntico”.[14] Estas três marcas são as seguintes:
a)      Jesus é verdadeiramente Deus vindo em Carne.
b)      Obediência aos mandamentos de Deus através de Jesus Cristo.
c)      Uma atitude de amor a Deus e ao próximo.
Então, João usa estas três marcas para descrever o verdadeiro cristianismo para a igreja de Cristo. Ele escreve com a finalidade de refutar uma heresia muito específica naquela época.
            Mas, qual o tipo de heresia  contra a qual João escreve? Esta pergunta é pertinente para o nosso entendimento geral desta carta. A heresia é conhecida como o “Gnosticismo”.[15] Mas qual é o tipo de Gnosticismo? Na época havia dois grupos de gnósticos, e estes dois grupos são:
            1) O Docético – O termo aqui deriva de um verbo chamado dokeô que tem o sentido de aparecer, ensinava que Jesus não foi uma pessoa humana de verdade. O Docetismo indagava: Como um ser espiritual, ‘Cristo’ ou o ‘Filho de Deus’ , que por definição é bom,pode tornar-se carne, que por definição é má”?.[16] O grande dilema   aqui era que embora um ser espiritual, segundo os docetas,  pudesse assumir a forma de carne temporariamente, jamais poderia tornar-se carne. E, assim a doutrina da encarnação era impossível dentro do sistema docetista e gnóstico.
            2) O Cerintiano – O termo deriva de um certo  homem chamado Cerinto de Alexandria que foi morar em Éfeso, foi contemporâneo de João e Policarpo. Irineu de Leão nos informa que este ensinava um gnosticismo[17]chamado adocionista. O seu ensino consistia em que Jesus era o filho natural de José e Maria. Jesus não nasceu como o messias, mas se tornou tal quando foi batizado no Rio Jordão, no momento em que a pomba desceu sobre ele. Na Crucificação de Jesus o Cristo o deixou sofrendo na Cruz – Deus meu, Deus meu! Por que me desamparastes? – quem sofreu na cruz não foi o Cristo mais apenas um homem.
A Carta de João parece ser uma resposta adequada a ambos os sistemas gnósticos. Isso pode ser percebido nos capítulos 4.1-3;5.5-9. “O autor escreve para mostrar como alguém pode saber se está na verdade: A verdadeira teologia é que Jesus é o Filho de Deus(3.23;5.5,10,13) que Cristo veio verdadeiramente em Carne (4.2)”.[18]
A carta parece está sendo escrita para combater uma espécie, ainda que incipiente, de gnosticismo. E assim fortalecer a igreja na verdade a respeito da encarnação de Cristo que tem sido a doutrina fundamental, a linha divisória entre o evangelho gerado por homens e o verdadeiro evangelho anunciado por Deus.

EXPOSIÇÃO:
 O que nos chama atenção é fato que esta carta não tem um prefácio como as demais cartas do Novo Testamento. E isso nos faz questionar: no que se concentram tais versículos? Alguém já disse que este prefácio “está interessado essencialmente na proclamação apostólica  do Evangelho”.[19] Isso decorre do fato de que apenas o Evangelho poderia responder satisfatoriamente a questão das heresias gnósticas.
A ETERNINDADE DO VERBO COMO PRÓLOGO À ENCARNAÇÃO

            A carta começa com uma nota altamente teológica “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da Vida”. O que este versículo tem a nos ensinar? Bem, consideremos algumas verdades:
            A primeira verdade a ser considerada é a expressão “O que era desde o princípio...” No grego nós temos (}O h=n avp avrch/j) “ho en ap arches” o uso do verbo (h=n) “en” aponta para o estado que não foi alterado, e o uso do substantivo (avrch/j) “arches” indica algo intemporal. Pode significar começo, principio, início. A ênfase aqui pode ser uma referência à pré-existência de Cristo e ao caráter absoluto de sua divindade. Todavia, é bem mais provável que o autor esteja se referido a mensagem do evangelho que se concentra no conteúdo central – Cristo Jesus o redentor da humanidade.
         A expressão “o que era” no grego pode ser traduzido por “aquilo” o termo é “mais amplo do quem,pois, inclui a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo”.[20]
            Mas, o grande dilema entre os exegetas está no uso da expressão “Com respeito ao Verbo da Vida” que no grego é - peri. tou/ lo,gou th/j zwh/j - “peri tou lógou tês zoês. A questão pode ser colocada da seguinte forma: Será que o termo - tou/ lo,gou -“ tou lógou” é  uma referência a Cristo ou a mensagem do Evangelho? E o termo (peri.) “peri está ou não qualificando os termos anteriormente estabelecidos (olhos, ouvidos, mãos)? O debate gira em torno destes termos.
            Concernente que na primeira questão nós defendemos que o termo “tou lógou é uma referência ao evangelho de Cristo que no tempo teve a sua manifestação histórica na Pessoa do Redentor, e isto , por meio, da encarnação. Isso é possivelmente defensível pelo fato de que o termo lo,gojlógos” é uma evolução lingüística do radical-le,g- “leg” de onde vem o verbo “legô” - le,gw - e significa “dizer”, mas não é um jogar de palavras “ tem o sentido de coletar as melhores palavras para ser proferidas”[21] o termo  “lógos” deriva desta construção gramatical, e indica que Cristo tem sido o melhor discurso de Deus ao homem.
            Este texto que temos diante de nós nos apresenta as verdadeiras características da mensagem do evangelho de Cristo. João sumariza tudo isso de forma muito clara nesta pericope. E de que forma podemos perceber isso?

I – A MENSAGEM DO EVANGELHO FUNDAMENTA-SE NO TESTEMUNHO OCULAR DOS APÓSTOLOS.

 A primeira questão é que a mensagem do evangelho está fundamentada no testemunho ocular dos primeiros apóstolos. Isso é percebido pelo uso que João faz de alguns verbos nesta passagem. Ele diz “O que temos ouvido” isto é uma referência a proclamação do evangelho trazida por Cristo. O verbo que é usado aqui é “akekoamen” [ avkhko,amen] está no perfeito, e este tempo verbal descreve a idéia de uma ação progressiva.  Ou como coloca Swetnan: No modo indicativo, o tempo perfeito é normalmente combinado com outros elementos no contexto, incluindo o significado do próprio verbo , para indicar a continuidade, resultado presente de uma ação anterior.[22]  
                Esta é uma definição bastante clara do tempo perfeito no grego, todavia, tal simplicidade não deve ser usada para se ignorar este tempo, pois, Moulton indica que “o tempo perfeito é o mais importante exegeticamente entre todos os tempos gregos”.[23] Isso é percebido nas construções gramaticas neste tempo usadas nesta epístola. É usado de forma deliberada por um autor, isto implica na singularidade deste tempo verbal.[24]
O outro vocábulo grego que temos usado aqui é [e`wra,kamen] “heorakamen”  – “o que temos visto” é um verbo que está no perfeito do indicativo da voz ativa, e o aspecto verbal usado aqui   indica que foi feita uma revelação em termos que os homens podiam compreender  e os resultados desta revelação tem efeito permanente na vida. O uso do plural aqui indica o autor desta epístola  e os demais apóstolos.[25] O uso do tempo perfeito aponta, também, para a possessão da mensagem a ser proferida.
            Mas, eles não apenas viram; pois, o texto  nos informa que eles “contemplaram” no grego a palavra é [evqeasa,meqa] “etheasámetha[26] aqui o verbo é um “aoristo” do indicativo médio.Isso quer dizer que foi algo que aconteceu no passado, e, aponta para  os dias que ele esteve com Cristo – que é o verbo da vida -  ele não apenas viu a manifestação histórica do Verbo neste mundo, mas ele fixou sua atenção a tudo que o Logos de Deus fez e ensinou neste mundo. O verbo aqui indica que havia uma consideração deveras solene e profunda para com a Pessoa de Cristo como o verbo de Deus. Este olhar distingue-se dos demais: é uma contemplação intencional.[27]           
Mas, as evidências não estavam apenas no campo da contemplação visual, mas também, encontrava-se no campo vivencial e empirista. Ele diz que as suas “mãos apalparam o verbo da vida”. As evidências vão tomando formas singulares. O empirismo teológico do apóstolo fundametam sua mensagem e autoridade. O verbo da vida pode ser tocado e sentido – indicando que não era um fantasma[28] -  isso era uma credencial apostólica ser uma testemunha ocular de tudo o que Cristo realizou. Mas será que tal argumento fundamenta-se? Há certa autoridade para isso, é quando o lado de Jesus é ferido depois de sua morte (João 19.35): “aquele que isto viu, testificou” ( Este é um testemunho ocular).
            O verbo grego usado para “apalpar” é [evyhla,fhsan] “epsêláphêsan” é um verbo que está no aoristo do indicativo – de fato nós apalpamos – na voz passiva. Este termo tem o sentido de um cego no escuro procurando por luz e a encontrou, pois,o aoristo pode oferecer o sentido de finalização desta procura.[29] Todavia, o sentido aqui é de examinar de perto como sendo uma evidência cabal de que o Eterno penetrou na história dos homens.
            Esta experiência apostólica o qualifica como testemunha do evangelho.Como “ministro das insondáveis riquezas de Cristo” não era um diploma do colégio apostólico que o qualificava como proclamador do evangelho, mas a experiência com o Logos encarnado. Os pregadores itinerantes que não tinham essa visão do lógos não eram nem sequer autorizados como autênticos pregadores do evangelho que gera vida; e nem muito menos eram apóstolos que foram chamados para anunciar o verbo da Vida.
            O próprio João “reclinava-se sobre o peito de Cristo”[30], e isso, o autoriza dizer que suas mãos apalparam o verbo da vida. A verdade do apostolado de João estava fincada em fortes bases – pois, a sua convivência com o Lógos silenciava toda e qualquer heresia gnóstica. Outra realidade é que esta evidência qualificava alguém para exercer o apostolado, a certeza de que alguém. Isso pode ser visto em textos como Atos 2.21-26; e, também, em 2 Coríntios 12.11-13. Uma vez que nenhum moderno apóstolo hoje tem essas credencias podem ser chamados de falsos apóstolos, isso no sentido estrito da Palavra.

II – A VERDADEIRA MENSAGEM DO EVANGELHO TESTIFICA DA ENCARNAÇÃO DO VERBO.

            A segunda característica que João nos apresenta no seu texto sobre , a verdaeira mensagem do evangelho é que ela  “Anuncia e testifica da Encarnação do Verbo”.O apóstolo não para em afirmar o seu testemunho ocular dos fatos, mas nos indica que este vivenciar com cristo tem um objetivo de proclamar os eventos históricos da encarnação. Ele diz que a “Palavra da vida se manifestou”! A palavra não ficou na eternidade ela tomou uma forma – o discurso de Deus se humanizou![31] Deus verbalizou sua verdade na encarnação de Cristo. Isso é notório pelo uso do verbo [evfanerw,qh] “efanerothê” que é um indicativo aoristo na voz passiva que indica tornar claro, tornar evidente,  manifestar. O discurso de Deus no A.T era por meio tipos e símbolos, mas no N.T é por meio da encarnação do seu Filho, pois, o verbo grego “indica a encarnação”[32].
            A manifestação de Cristo no V.T , por meio dos tipos e símbolos, era imperfeita, todavia suficiente aos crentes daquele tempo, todavia, na encarnação de Cristo Deus tabernáculou entre nós (Jo.1.14) de forma perfeita e plena, Deus se revela redentor,por meio do “Verbo da vida” no grego“logou tês zoês” [lo,gou th/j zwh/j] aqui o gentivo pode ser tomado de três formas básicas: 1) pode indicar o conteúdo da Palavra – a Vida que é Cristo, é uma proclamação de sua obra e de sua pessoa; 2) pode indicar a qualidade – palavra  viva; 3) ou pode indicar o objeto – o verbo que dá vida.
           João  testifica do Verbo encarnado quando ele diz “testemunhamos”. O verbo grego aqui [marturou/men] “martyroumen”, segundo Stott, é usado para indicar a “autoridade da experiência apostólica”[33] está no tempo presente, exigindo assim uma ação contínua, significa que o testemunho ocular de João não deveria ser monopolizado por ele e pelos demais apóstolos, mas que deveria ser anunciado constantemente. Esse testemunho dá força para uma anunciação singular, o apóstolo, usa o verbo [avpagge,llomen] “apangellomen” este verbo é usado no grego para descrever a idéia de reportar, declarar. Aqui o sentido é de indicar “a fonte da qual procede a mensagem”[34] as duas palavras “martyroumen e apangellomen” enfatizam que a mensagem tem fundamento no testemunho ocular de João. Ele como testemunha ocular dos fatos ocorridos é autorizado a testificar da encarnação de Cristo. Aquele verbo que fora tocado pelo apóstolo era o fundamento de sua proclamação.
            O versículo 2 é uma espécie de parênteses no qual o autor nos indica que a vida foi revelada por Deus na pessoa de Cristo. A proclamação da encarnação de Cristo não gera um mero intelectualismo, pois, a função desta proclamação é apresentar “a vida eterna” que estava com “Deus Pai” (ten zoen ten aionion hetis en pros ton patera - th.n zwh.n th.n aivw,nion h[tij h=n pro.j to.n pate,ra), isso é bastante singular. A vida eterna que possuirmos só encontra realidade em nós por causa da encarnação de Cristo. Ele é a Vida Eterna que estava com o Pai e foi manifestada a nós pecadores.





III – A VERDADEIRA MENSAGEM DO EVANGELHO TEM DOIS OBJETIVOS ESPECÍFICOS: PROMOVER COMUNHÃO E ALEGRIA.

            A terceira característica da mensagem do evangelho é que ela apresenta o duplo propósito da doutrina da encarnação:  “Promover comunhão e alegria plena”.
            As igrejas estavam vivendo em profunda desarmonia por causa das heresias que estavam presentes naquele tempo, e os pregadores intinerantes se advogavam como apóstolos, mas aqui João nos diz que o autentico apóstolo proclama a encarnação para “que mantenhais comunhão conosco...”
No grego a palavra “comunhão” é [koinwni,an] “koinonian” indica “o afastamento dos interesses particulares e a união com outras pessoas para o cumprimento de alvos comuns”[35].Como podemos saber que isso é expressamente o objetivo da proclamação de João? Podemos perceber pelo uso que ele faz do subjuntivo do verbo “echête” [e;chte], o modo subjuntivo em grego tem o objetivo de indicar finalidade, e está no tempo presente, aqui João está dizendo que não é apenas para se “ter” comunhão, mas para continuar tendo – sempre tendo comunhão – talvez o uso do tempo presente esclareça adequadamente o fato de João incluir nesta comunhão a Pessoa de Deus Pai e de Deus Filho. “Ora a nossa Comunhão é com o Pai e com seu Filho”.
Isso nos lembra que a comunhão não é apenas horizontal, mas antes é vertical. A verdadeira doutrina da encarnação nos leva a ter não só comunhão uns com os outros, mas também com as três pessoas da Trindade. João não menciona o Espírito Santo aqui, isso porque (como é lógico), somente o Espírito Santo é capaz de promover essa comunhão, e sabemos que este Espírito Santo habita em nós e nos capacita a essa comunhão.
Aqui também é-nos indicado que a comunhão “com o Pai e com seu Filho” aponta para a nossa Salvação que encontramos em Cristo por meio da ação soberana do Espírito Santo, somos membros de Cristo e temos comunhão com Deus.
O segundo propósito da proclamação ou mesmo do registro da encarnação “Estas coisas, pois, vos escrevemos...” tem a finalidade de produzir algo deveras importante “alegria completa”.
Qual é a idéia aqui? A idéia é de plena satisfação. João, ao usar o verbo grego [peplhrwme,nh] “peplêromenê”, está nos dizendo que e encarnação produz plena satisfação à igreja continuamente, pois, o tempo presente do verbo nos indica isso.
Wallace nos diz que há certa dificuldade com a expressão “nossa alegria”, aqui o “nós” é inclusivo ou exclusivo? Coloquemos a questão conforme formulou Wallace:
O propósito da carta é: que o autor tenha alegria ou que o autor e os ouvintes experimentam alegria? Um complicador da questão é o testemunho dos MS (manuscritos): algumas testemunhas têm “hemôn” (e.g., a B L Y 1241) enquanto que outros têm “hymôn” (e.g., A C K P 33 1739). A questão é muito difícil para fecharmo-la. Contudo, pelo menos, o pronome na segunda pessoa sugere implicitamente que os escribas viram os ouvintes como participantes do propósito alegre da epístola.[36]

         A resposta a esse dilema é que o apóstolo usa o pronome de forma inclusiva - e ele e os demais apóstolos tinham como objetivo, através da proclamação do evangelho, promover uma plena alegria na vida da Igreja.
A ênfase de João está no fato de que a encarnação completa a nossa alegria. Mas também garante a suficiência da mensagem cristã. Nada lhe falta. A mensagem cristã tem tudo. O verbo está no particípio perfeito indicando que uma ação foi realizada no passado, mas que os seus resultados são duradouros. Tudo está completado, a igreja não precisa de experiências místicas, não carece do conhecimento avançado do gnosticismo ou da ilusão dos docetas para continuar existindo, essas coisas não comunicam a autêntica alegria. Mas a alegria da igreja está fundamentada na mensagem da encarnação do Verbo que comunica vida aos homens. Esse era o desejo latente do coração do apóstolo João. Ao usar o subjuntivo associado a um verbo num particípio perfeito indica que há um desejo para que aquela alegria primeva continue abundantemente na vida dos que conhecem a mensagem do verbo da vida.
CONCLUSÃO:
Diante do que vimos podemos dizer que o apóstolo João ao escrever esta carta tinha como objetivo. Edificar os crentes na verdadeira fé a respeito da encarnação. E o caminho que ele  faz isso é mostrando que características  cabia para a verdadeira mensagem do evangelho.  Aprendemos com o apóstolo que o ministério de pregação da verdade não pode estar baseado em sintomáticas emergenciais, mas deve estar alicerçado sobre o mais sólido fundamento; o testemunho singular da encarnação de Cristo. Onde é possível perceber e contemplar o eterno em termos tangíveis. Aqui entendemos que muito mais que anunciar a Cristo é preciso crer nele como o Deus vindo ao mundo que se tornou servo para redimir pecadores; algumas coisas são pertinentes aqui, a primeira consiste em rejeitar aquela idéia de que a doutrina divide a igreja; a verdade demonstrada por João é contrária a tal pensamento – a doutrina (a verdadeira doutrina) promove comunhão dentro da igreja de Cristo. Esta conclusão é inevitável quando lemos este trecho das Escrituras Sagradas.
            A outra verdade que aprendemos é que a mesma doutrina deve gerar alegria aos crentes, a verdade deve fazer brotar no peito a semente da alegria cristã. Uma alegria completa que não precise de algo mais, não precise de misticismo ou emocionalismo barato, pois, na encarnação temos o que é necessário para a vida cristã e para uma vida pura em Deus – temos Deus dando-se a si mesmo aos pecadores. Temos o eterno no tempo; o humano no divino; o Criador vivendo com as sua criação. E, estas verdades conferem a suficiência plausível à mensagem cristã. Aqui temos a razão da existência do nosso ministério, e o resumo de toda a nossa pregação  - Cristo é Deus Encarnado!
            Esta não é uma verdade sem conteúdo. Também não é um ensino para o alimento intelectual de alguns crentes, mas é um ensino para promover a comunhão dentro da igreja de Cristo, é um ensino para trazer alegria ao coração do aflito, que ao saber que um Deus nos céus se importa com ele o seu coração se enche de alegria singular; e mergulha em uma gratidão solene ao Cristo da Cruz por tão sublime amor.  A outra verdade aprendida aqui é que é possível ao pastor ter esperança no futuro, pois, a sua mensagem é divina – e nunca humana –  isto porque se o ministério pastoral centralizar-se em ensinar apenas Cristo aos pecadores, ele (o pastor) nunca falhará ou fracassará em sua mensagem. Isto nos confere conforto ao coração, pois, temos uma mensagem que foi idealizada por Deus na eternidade e tudo que temos que fazer é transmiti-la com reverência e temor.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

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16.               RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave Lingüística do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1985.
17.                STOTT, John R.W. I,II,III João – Introdução e Comentário, Vida Nova, São Paulo, Ano de Edição 1982.
18.               SWETNAN, James. Gramática do Grego do Novo Testamento – parte 1: Morfologia, Volume 1 – Lições, São Paulo: Paulus, 2002.
19.               WALLACE, Daniel B. Gramática Grega – Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. São Paulo: IBR, 2009, p.573.







* O autor é formado em Teologia Pelo Seminário Presbiteriano do Norte (Recife – PE). Também é professor e coordenador do Departamento de Teologia Exegética do Antigo e Novo Testamento no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil (Recife – PE); é fundador do CEP – Centro de Estudos Presbiteriano. Atualmente pastoreia a Primeira Igreja Presbiteriana em São Raimundo Nonato no Piauí.
[1] JAMIESON,Roberto & BROWN, A.R.Fausset  David. Comentario Exegético y Explicativo de la Bíblia, p.725
[2] CESÁREA, Eusébio de. História Eclesiástica, Livro 3 e Capitulo 59
[3] LEÃO, Irineu de. Contra as Heresias, 3.15;5,8.
[4] HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento,Rio de Janeiro: Juerp, p.410
[5] TENNEY, Merril C. O Novo Testamento – Sua Origem e Análise, São Paulo:Vida Nova, p.399
[6] CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo, São Paulo: Candeia, 1986, p.217.

[7] CARSON, D.A.; MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon, Op.Cit, p.500.
[8] CHAMPLIN, Russell Norman, Op.Cit, p.217
[9] Idem.
[10] CARSON, D.A.; MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon, Op.Cit, p.501.

[11] Ibid, p.500.
[12] Apud, HALE, Broadus David,Op.Cit, p.412.
[13] A razão para isto encontra-se no fato de que João não fala sobre a queda de Jerusalém em 70 d.C, se os seus escritos fosse escritos posteriormente a esta data, certamente o apóstolo faria menção direta a isto.
[14] Ibid, p.414.
[15] Gnosticismo:É o ensino que se baseava  no dualismo neoplatônico, que acreditava numa dicotomia entre a matéria (má)  e o espírito que era visto como bom.
[16] CARSON, D.A.; MOO, Douglas J. & MORRIS, Leon,, Op.Cit, p.502.
[17] LEÃO, Irineu de Contra as Heresias, Livro 1, Cap.26, Parágrafo 1. São Paulo: Paulus, 1995.

[18] HALE, Broadus David, Op.Cit, p.414.

[19] STOTT, John R.W. Op.Cit, p.50.
[20] KISTEMAKER, Simonton. Op.Cit, p.310.
[21] CHAMBERLAIN, Willian Douglas. Gramática Exegética do Grego Neo-testamentário. São Paulo: CEP, 1989. p.35-36.
[22] SWETNAN, James. Gramática do Grego do Novo Testamento – parte 1: Morfologia, Volume 1 – Lições, São Paulo: Paulus, 2002.p. 138. – ênfase dele.
[23] Apud, WALLACE, Daniel B. Gramática Grega – Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. São Paulo: IBR, 2009, p.573.
[24] WALLACE, Daniel B. Gramática Grega – Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento. São Paulo: IBR, 2009, p.573.

[25] Veja-se KISTEMAKER, Simonton.Op.Cit, p.310.
[26] No quarto evangelho este verbo é usado como o sentido de olhar para – 1.14 – contemplar a glória de Jesus; 1.32. contemplar o Espírito Santo descendo do céu;1.38;4.35;6.5;11.45; 1 João 4.12
[27] RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave Lingüística do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1985.p.583.
[28] Notoriamente o apóstolo é inimigo do gnosticismo.
[29] RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Op.Cit, p. 583.
[30] JAMIESON, Roberto; FAUSSET, A.R. & BROWN, Op.Cit, p.728.
[31] O conceito Barthiano do Logos não é o nosso ponto de partida, mas a história redentiva de Deus em comunicar-se com os pecadores por meio de seu Filho.
[32] RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego, p. 583
[33] STOTT, John R.W. Op.Cit, 54
[34] RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego, p. 583
[35] Idem.
[36] WALLACE, Daniel B. Op.Cit, p.399.