sábado, 13 de outubro de 2012

A GRANDEZA DAS ESCRITURAS TERCEIRA PARTE

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER 
CAPÍTULO I - DAS SACRADAS ESCRITURAS.

Prof. Rev. João Ricardo Ferreira de França.


III  - O CÂNON DAS SAGRADAS ESCRITURAS.

SEÇÃO III – Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos.
Ref. Luc. 24:27,44; Rom. 3:2; II Pedro 1:21.
            Esta é mais uma daquelas estupendas declarações da Confissão de Fé de Westminster. Aqui nesta seção vamos trabalhar vários conceitos do tipo: o que é um livro apócrifo? O que se refere a doutrina da canonicidade? Quais os critérios usados pela igreja para se chegar ao cânon que possuímos?
            Estas e outras questões nós abordaremos aqui neste estudo. Pois, é de suma importância para a Igreja entender adequadamente a doutrina aqui enunciada.

1. A DOUTRINA DA CANONICIDADE DAS ESCRITURAS.

            O que significa o termo “cânon”? Geralmente se entende que a Escritura é o “Cânon” de nossa fé. A formação e a estrutura da Bíblia para nós requer que procuremos uma definição simples, todavia, clara e profunda do que o conceito encerra.
            A palavra “cânon” é uma mera transliteração do termo grego “kanw,n” – kanôn – que significa vara reta, régua, regra. É uma palavra usada com referência para indicar a autoridade suprema da Bíblia sobre a vida dos cristãos. Ou seja, refere-se aos livros que compõem a Bíblia conforme conhecemos.[1]
          Uma definição mais lexical nos informa que a origem da palavra “cânon” é derivada
de uma de uma raiz semítica [assírio Qanû; ugarítico:Qn; hebraico: hn<q;)( (Qâneh) ocorre 61 vezes no Antigo Testamento e é sempre empregada no sentido literal (veja-se 1 Rs 14.15; Jó 40.21; Is 36.6; 42.3; Ez 40.3,5,7), significando ‘cana’ (planta que era usada para medir e pautar) “balança” (Is.46.6) e também ‘a cana para trançar os cestos, ou bastão reto[2]
Tomando por empréstimo podemos dizer que a palavra “Cânon” indica a nossa regra, o nosso limite e ainda mais, o nosso padrão; sendo todos estes sentidos aplicados à Palavra de Deus.

1.1 – A Estrutura Canônica do Antigo Testamento

            A Bíblia possui, dentro de sua disposição canônica, oito seções, sendo quatro no Antigo Testamento e quatro no Novo Testamento.[3] Vamos no deter neste momento sob o Antigo Testamento e a sua estrutura canônica, sua formação e sua disposição no que respeita aos livros e classificações:

Livros do Antigo Testamento
A lei (Pentateuco) – 5 livros
Poesia – 5 livros
1. Gênesis
2. Êxodo
3. Levítico
4. Números
5. Deuteronômio
1. Jó
2. Salmos
3. Provérbios
4. Eclesiastes
5. O Cântico dos Cânticos
Historia – 12 livros
Profetas – 17 livros
 1. Josué
 2. Juízes
 3. Rute
 4. 1Samuel
 5. 2Samuel
 6. 1Reis
 7. 2Reis
 8. 1Crônicas
 9. 2Crônicas
10. Esdras
11. Neemias
12. Ester
A. Maiores

1. Isaías
2. Jeremias
3. Lamentações
4. Ezequiel
5. Daniel
B. Menores

 1. Oséias
 2. Joel
 3. Amós
 4. Obadias
 5. Jonas
 6. Miquéias
 7. Naum
 8. Habacuque
 9. Sofonias
10. Ageu
11. Zacarias
12. Malaquias

          A tabela apresenta acima mostra a disposição dos livros conforme aprecem em nossa Bíblia, esta é a atual estrutura canônica das Escrituras conforme temos na Escritura Protestante (evangélica. Esta divisão foi ocasionada devido a influência da versão grega do Antigo Testamento conhecida como Septuaginta (LXX), conforme nos diz dois estudiosos:
A divisão do Antigo Testamento em quatro seções baseia-se na disposição dos livros por tópicos, com origem na tradução das Escrituras Sagradas para o grego. Essa tradução, conhecida como a Versão dos septuaginta (lxx), iniciara-se no século III a.C. A Bíblia hebraica não segue essa divisão tópica dos livros, em quatro partes. Antes, emprega-se uma divisão de três partes, talvez baseada na posição oficial de seu autor. Os cinco livros de Moisés, que outorgou a lei, aparecem em primeiro lugar. Seguem-se os livros dos homens que desempenharam a função de profetas Por fim, a terceira parte contém livros escritos por homens que, segundo se cria, tinham o dom da profecia, sem serem profetas oficiais..[4]
          Paulo Anglada chama a nossa atenção exatamente para isso quando diz: “Embora o conteúdo canônico protestante seja o mesmo do cânon hebraico, a divisão e a ordem dos livros são diferentes”[5] conforme vemos no quadro abaixo:

Disposição dos livros do Antigo Testamento hebraico
A lei
(Tora)
Os profetas
(Nebhiim)
Os escritos
(Kethubhim)
1. Gênesis
2. Êxodo
3. Levítico
4. Números
5. Deuteronômio
A. Profetas anteriores
1. Josué
2. Juízes
3. Samuel
4. Reis

B. Profetas posteriores
1. Isaías
2. Jeremias
3. Ezequiel
4. Os Doze
A. Livros poéticos
1. Salmos
2. Provérbios
3. Jó
B. Cinco rolos (Megilloth)
1. O Cântico dos Cânticos
2. Rute
3. Lamentações
4. Ester
5. Eclesiastes
C. Livros históricos
1. Daniel
2. Esdras-Neemias
3. Crônicas

            Essa disposição é confirmada no Novo Testamento pelo próprio Senhor Jesus em Lucas 24.44

1.2 – A Estrutura Canônica do Novo Testamento

            Podemos dizer que a estrutura e organização do Novo Testamento são simples. Conforme podemos ver no quadro abaixo:
Livros do Novo Testamento
Evangelhos
História
1. Mateus
2. Marcos
3. Lucas
4. João
1. Atos dos Apóstolos
Epístolas
 1. Romanos
 2. 1Coríntios
 3. 2Coríntios
 4. Gálatas
 5. Efésios
 6. Filipenses
 7. Colossenses
 8. 1Tessalonicenses
 9. 2Tessalonicenses
10. 1Timóteo
11. 2Timóteo
12. Tito
13. Filemom
14. Hebreus
15. Tiago
16. 1Pedro
17. 2Pedro
18. 1João
19. 2João
20. 3João
21. Judas
Profecia
1. Apocalipse


2. CRITÉRIOS PARA A CANONICIDADE.

            A questão de se ter um cânon é: como saber se os livros do Novo Testamento que temos são os verdadeiros?  Eis ai a nossa questão.
            Quando no inicio do primeiro século começou a surgir uma variedade de livros arrogando-se serem os livros verdadeiros do cristianismo. A igreja se viu na obrigação de dizer quais livros eram divinos ou não; e por isso, se estabeleceu critérios pertinentes para se avaliar tais livros.


2.1 – Apostolicidade.
            Este é o primeiro critério estabelecido. Um livro para ser reconhecido como regra na vida da Igreja deveria ter sido escrito por um apóstolo ou por alguma pessoa ligada ao mesmo. Por exemplo, João Marcos (autor do evangelho de Marcos) não fora apóstolo, mas a tradição informa que Marcos fora “o intérprete de Pedro”[6]; esse critério era pertinente para evitar grotescos abusos que estavam sendo feito pelos inimigos da verdade.
2.2 – Leitura Eclesiástica.
            O segundo critério aponta para o fato de que os livros canônicos seriam reconhecidos também, por meio da leitura litúrgica de tais livros. Se a igreja sempre usou aquele referido o mesmo este deveria ser coloca na lista canônica. Este critério pode ser encontrado na própria escritura em Colossenses 4.16 e em 1 Timóteo 4.13.
            Um exemplo deste fato pode ser visto na apologia de Justino ao descrever o que ocorria em culto eucarístico:
E no dia chamado Domingo, todos quantos moram nas cidades ou no interior reúnem-se juntos num só lugar, são lidas as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, por tanto tempo quanto possível; depois, tendo terminado o leitor, o presidente instrui verbalmente, e exorta à imitação dessas coisas virtuosas. Em seguida, todos nos colocamos de pé e oramos e, conforme dissemos antes, ao terminarem as nossas orações são trazidos pão, vinho e água, e o presidente, de modo semelhante, oferece orações e ações de graças, segundo a sua capacidade, e o povo concorda dizendo amém.[7]

2.3 – A Harmonia Doutrinária
            Um livro para se canônico deveria ensinar fundamentado no que já havia sido estabelecido; ou seja, se um livro ensinasse algo contrário aquilo que os apóstolo e a sabedoria da Igreja sempre ensinou deveria se rejeitado como sendo um livro não-canônico.
            Estes são os três fundamentais critérios para a questão do Cânon do Novo Testamento, e sem eles nada podemos ensinar pregar, ou mesmo defender o evangelho.

2.4 – A Inspiração
            O que significa Inspiração? O termo é impróprio para aquilo que visa designar. Isto porque o termo não seria inspiração (soprar para dentro), mas expiração (soprar para fora); pois, foi isso que Deus fez conosco.
            O que entendemos por inspiração “como sendo a influência sobrenatural do Espírito de Deus sobre os homens separados por ele mesmo, a fim de registrarem de forma inerrante e suficiente toda vontade de Deus, constituindo esse registro na única fonte e norma de todo o conhecimento cristão” [8]
            De acordo com o Novo Testamento a doutrina da inspiração diz respeito a Deus soprar a sua revelação nas páginas das Escrituras (2 Timóteo 3.16). O leitror deve também saber que existem várias teorias a respeito da inspiração.
2.4.1 - Concepção de Inspiração Dinâmica:
            Algumas pessoas acham que a doutrina da Inspiração consiste em um ditado. Onde Deus dinamicamente falou ao escritor sagrado palavra por palavra, ponto por ponto de toda a Bíblia.
            Essa concepção ignora a existência de estilos variados nas Escrituras que negam a possibilidade de um ditado. E a Escritura é clara quanto a existência de estilos literários de cada escritor da mesmo, e, nós vemos isso na em 2 Pedro 3.13-16. Pedro reconhece que Paulo tem um estilo próprio ao escrever suas cartas.
2.4.2 - Concepção de uma iluminação:
            Outra ideia equivocada que geralmente ouvimos é que inspiração é a mesma coisa que iluminação. Sendo apresentado a ideia de que os autores humanos das Escrituras fossem apenas homens iluminados e nada mais do que isto.
2.4.3 – A Concepção da Inspiração Plenária:
            Devemos acreditar que a inspiração das Escrituras está em toda a Bíblia, não são algumas partes que são inspiradas e outra não. O conceito de Inspiração Plenária. Desde o Gênesis até o apocalipse, tudo o que foi registrado, foi por vontade de Deus (2 Timóteo 3.16; 2 Pedro 1.20-21)[9]
2.4.4 – A Concepção da Inspiração Verbal:
            Esta concepção deve ser aceita como verdadeira, pois, entendemos que Deus falou sua palavra por meio dos autógrafos originais a sua mensagem. (2 Samuel 23.2; Jeremias 1.9; Mateus 5.18; 1 Coríntios 2.13).

3. A DOUTRINA DA CANONICIDADE E OS APÓCRIFOS

            A doutrina do Cânon inevitavelmente nos levará para a questão dos livros chamados de “Apocrifos”. O que é um livro apócrifo? Na concepção popular é um livro duvidoso. O termo vem do grego e significa “sem assinatura”, ou seja, não possui  assinatura de Deus. Também o termo pode ser entendido como “oculto”. Indicando a não identificação de sua autoria.[10]
            Por que eles são classificados nesta categoria de livros sem assinatura? A resposta pode ser apresentada em duas nagativas consistentes conforme aprendemos aqui nesta seção da Confissão de Fé “Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura”.
3.1 - Por não serem inspirados não tem autoridade sobre a Igreja.
            Aqui nós aprendemos que somente os livros canônicos podem ter autoridade de governo e doutrina sobre a vida da Igreja, toda doutrina fundamentada em um livro não autorizado canonicamente é uma heresia. Eles não devem ser usados como livros autoritativos na vida do povo pactual de Deus.


3.2 – Devem ser empregados como meros livros humanos.
            O segundo aspecto que devemos levar em consideração é o fato de que tais livros podem ser úteis pelo conhecimento que transmitem. A Confissão de Fé de Westminster diz que tais livros  “não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos. ”.
            Nós devemos ler estes livros apócrifos, estudá-los buscar compreendê-los, mas meramente como livros humanos. Paulo Anglada nos traz uma palavra positiva sobre este tema:
Alguns dos apócrifos são realmente úteis como fontes de informação a respeito de uma época importante da história do povo de Deus: o período inter-testamentário. Os protestantes reconhecem o valor histórico dele. Seguindo a prática dos primeiros cristãos, as edições modernas protestantes da Septuaginta normalmente incluem os apócrifos , e até algumas bíblias protestantes antigas os incluíam, no final, apenas como livros históricos.[11]

Conclusão: O cânon das Escrituras nos foi dado para ser a nossa única regra de obediência e prática; isto implica no fato de que as Escrituras conforme temos não é fruto da tradição dos homens, mas da vontade de Deus que deseja orientar-nos por meio de suas palavras registradas de forma clara e compreensível aos homens.




[1] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.33-34.
[2] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.18-19
[3] GEISLER, Norman L.  &  NIX,  William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia  chegou até nós. Tradutor: Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida, 1997, p.7

[4] GEISLER, Norman L.  &  NIX,  William E. Introdução Bíblica - Como a Bíblia  chegou até nós. Tradutor: Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida, 1997, p. 8
[5] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.35.
[6] Eusébio de Cesárea, Apud, COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.39.
[7] MÁRTIR, Justino. Primeira Apologia, Cap. 67, In: Ante-nicene Fathers, p.69. [ênfase nossa]
[8] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.98.
[9] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Inspiração e Inerrância das Escrituras. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p.99.
[10] O surgimento dos livros apócrifos deve-se ao período intertestamentário, onde houve um silencio profético de 400 anos a.C, o homem na ansiedade de ouvir uma voz profética decidiu escrever obras nas quais tencionava dizer que Deus estava se revelando ao seu povo. O silêncio profético compreende de Malaquias até Mateus.
[11] ANGLADA, Paulo R. B. Sola Scriptura – A doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p.41.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A GRANDEZA DAS ESCRITURAS - SEGUNDA PARTE

ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER
CAP.I - DA SAGRADA ESCRITURA
Prof. Rev. João Ricardo Ferreira de França

II – A NATUREZA DAS ESCRITURAS.
SEÇÃO II – Sob o nome de Escritura Sagrada, ou Palavra de Deus escrita, incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento, que são os seguintes, todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática:
O Velho Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provér-bios, Eclesiastes, Cantares; Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
O Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, 1, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse.
Ref. Ef. 2:20; Apoc. 22:18-19: II Tim. 3:16; Mat. 11:27.
            Vivemos em um tempo no qual a natureza da Bíblia Sagrada não mais levada em consideração. Neste segundo estudos estaremos nos concentrando na Natureza das Escrituras; pois, somente assim poderemos perceber e viver a grandeza da Palavra de Deus. O que nós podemos aprender desta segunda seção da Confissão de Fé de Westminster? Vejamos:
1. A SACRALIDADE DA PALAVRA.
            A primeira consideração a ser feita é a questão da sacralidade da Palavra de Deus. Os teólogos puritanos pensaram muito neste tema a ponto de iniciarem esta seção com a seguinte declaração: “Sob o nome de Escritura Sagrada” O que significa esta declaração?
1.1 – Significa que a Palavra é Santa porque é fruto da vontade de Deus.
            A santidade da Palavra de Deus é notada e percebida porque a mesma é fruto da vontade de um ser que é sumamente santo – esta vontade perfeita nos conclama a uma vida de obediência – isto tem implicações significativas,pois, requer de nós que reconheçamos esta vontade boa e perfeita: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”( Romano 12:2  )
1.2 – Significa que a Escritura é assim adjetivada porque é separada dos demais livros.
            As religiões pelo mundo a fora possuem seus livros. Todavia, apenas a Bíblia é capaz de libertar o homem, de torná-lo sábio para a salvação. O apóstolo nos lembra: “   que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus.”( 2 Timóteo 3.15).
            Chama-nos atenção aqui neste texto é o termo:“sagradas letras” -i`era. gra,mmata- hyerá gramata. O termo usado para sagrada é de uma raiz que apenas o sacerdote dignificando assim a natureza da Bíblia Sagrada. Então, a Bíblia continua sendo a Palavra de Deus.
2. A BÍBLIA COMO PALAVRA DE DEUS.
            Em nossos dias existe uma tentativa de fazer uma distinção entre a Palavra de Deus e as Escrituras, ou melhor, entre a Bíblia e a Palavra de Deus; e muitos, pensam que tal distinção é algo novo; todavia, é tão antigo quanto qualquer outro ensinamento. Nesta seção que estamos analisando temos uma resposta sobre a questão da Bíblia como palavra de Deus.
            Os autores da Confissão de Fé declaram: “sob o nome de Sagrada Escritura, ou Palavra de Deus escrita”. Aqui claramente se condenam diversos ensinos que surgiram na história da Igreja e que continuam atuando na mente de muitas pessoas  na atualidade, eis os ensinos que são rejeitados:
2.1 – O Liberalismo Teológico.
            No século XVII e XIX surgiu um movimento conhecido na história como Liberalismo Teológico que em hipótese alguma considerava a Bíblia como Palavra autoritativa  de Deus. Eles ensinavam que a Escritura era cheia de mitos. “Podemos definir o Liberalismo Teológico como o esforço por interpretar, reformular e explicar a fé cristã dentro de uma perspectiva iluminista”.[1]Ou seja, tudo aquilo que a razão não pudesse explicar entrava na categoria de mito.
            O Liberalismo aflora em 1920 e encontra um opositor chamado John Gresham Machen, pastor presbiteriano, que ecoa sua trombeta declarando ser o Liberalismo Teológico um inimigo da fé cristã e sendo outra religião.[2] Um dos grandes expoentes do pensamento liberal foi o Rodolph Bultmann que ensinava a Bíblia na Universidade propondo que a mesma estivesse cheia de mitos, sendo assim, é necessário tirar  os mitos fundantes da Palavra de Deus – e assim, nasce  o processo hermenêutico chamado  de desmitologização das Escrituras.
            Para o Liberal os milagres, as curas e a ressurreição de Cristo não foram reais. Um exemplo clássico disso é a multiplicação  dos pães e peixes realizada por Jesus, onde uma criança traz estes elementos. Bultmann ensina que aquilo não aconteceu milagrosamente, mas que as pessoas viram a atitude do menino e decidiram partilhar tudo o que tinham com o próximo – este é o ensino moral da passagem segundo os liberais.
2.2 – O Barthianismo ou Neo-ortodoxia.
            Neste conflito entre os liberais e os conservadores surgiu um homem chamado Karl Barth que desenvolveu um método para responder as criticas liberais sobre as Escrituras. O método Barthiano ficou conhecido como dialética ou neo-ortodoxia. Para Barth a revelação de Deus se dava em três esferas: na criação, no querygma [pregação] da igreja e na Escritura – segundo ele Deus fala-nos por meio de uma Bíblia cheia de erros e contradições.
            A fragmentação da revelação pela neo-ortodoxia gerou muitos problemas, porque na concepção barthiana havia parte nas Escrituras que eram palavra de Deus e outras não; todavia, o ponto culminante desta concepção de Barth era que para ele a Bíblia se tornava a Palavra de Deus na pregação quando era sentida no coração do ouvinte, em outras palavras o método de Barth era empirista [o conhecimento por meio da experiência] – a medida avaliadora se a Bíblia era Palavra de Deus  estava na experiência do individuo que a recebesse como tal.
            Todos estes dois ensinos não são bíblicos, pois, sabemos que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita. Ela não se torna e nem se transforma quando a lemos ou a sentimos no coração. Ela aberta é Palavra de Deus  e fechada continua sendo a mesma verdade divina. Nenhuma experiência pode aprovar ou desaprovar a Palavra de Deus. Foi exatamente isso que o Senhor Jesus nos ensinou em Lucas 16.29-31:
Respondeu Abraão: Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos.  Mas ele insistiu: Não, pai Abraão; se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão. Abraão, porém, lhe respondeu: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.
            Esta passagem é importante para nós. Pois, aqui temos uma história de dois homens um rico e um personagem chamado Lázaro, ambos morrem um vai para o céu e outro para o inferno; todavia, o que está no inferno [o rico]  pede para que o Pai Abraão enviasse Lázaro  de volta para mostrar aos seus irmãos que se eles morressem iriam para um lugar de tormentos; mas, tal pedido lhe é negado. E por quê? O texto nos informa porque se eles não escutam a Lei de Deus [Moisés e os Profetas] não importa os milagres  que se faça, não importa a experiência que tenham; a simples recusa em acreditar no que está escrito na Bíblia declara-os réus do juízo de Deus.
3. A UNIDADE DA PALAVRA DE DEUS.
            O terceiro aspecto a ser considerado nesta declaração da Confissão de Fé diz respeito a unidade das Escrituras; pois, nos nossos dias ouvimos pessoas declararem que vivem no tempo da graça [ ou do Novo Testamento ] e que o tempo da Lei [ Antigo Testamento ] passou.
            A Confissão de Fé de Westminster nos ensina de forma clara e inquestionável a unidade das Sagradas Escrituras  sob a seguinte declaração: Sob o nome de Escritura Sagrada [...] incluem-se agora todos os livros do Velho e do Novo Testamento. Aqui temos uma resposta ao Dispensacionalismo que tem ensinado uma ruptura entre o Antigo e Novo Testamento. E que nada do Antigo Testamento se relaciona com o cristão do Novo Testamento. A proposta enunciada por este princípio é que Deus tem dois povos. Esta postura  levanta  um dos grandes problemas para os pregadores de nossos dias: a quem deve ser dirigido o Antigo Testamento? A Bíblia de Scofield acentua essa distinção nos seguintes temos:


            O que nos chama atenção na argumentação paulina é que ele diz “tudo” (o[sa- hosa) nada é deixado de fora; o que “foi escrito antecipadamente” (proegra,fh – proegráfê) tem por objetivo o ensino da Igreja. E assim a igreja neotestamentária é confortada e consolada.
A visão interpretativa do Dispensacionalismo ignora substancialmente o ensino de Romanos 11.17 “fomos enxertados na oliveira nos alimentamos da mesma raíz”; isto indica que existe uma unidade basilar e necessária, pois, Deus não tem dois povos, Greidanus comenta o seguinte:


            Então, devemos rejeitar toda e qualquer noção de ruptura entre o Antigo e Novo Testamento não autorizado pela Palavra de Deus; existem descontinuidades sim entre o Antigo Testamento não autorizado pela Palavra de Deus; existem descontinuidades sim entre o Antigo e o Novo Testamentos, mas nada que seja para descartar a totalidade da revelação veterotestamentária.
4. A PALAVRA DE DEUS COMO NOSSA REGRA.
            Os puritanos confessionais declararam: “todos dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de prática”. O que é a Escritura sagrada para nós?
4.1 – Uma Regra de Fé.
            O que significa dizer que a Bíblia é a nossa regra de fé? É que tudo o que nós fazemos em matéria de adoração e culto deve está fundamentado na Palavra de Deus; ou seja, tudo o que nós cremos deve ter base bíblica. Devemos estar fundamentados na doutrina dos apóstolos e profetas: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular;”(Efésios 2.20).
            Tudo aquilo que nós realizamos em matéria de fé deve ser aprovado pelas Escrituras, qualquer crença ou ensinamento  deve ser proposto apartir das Escrituras, seguindo os métodos coerentes de interpretação Bíblica, por meio da análise contextual  da passagem, a intenção do autor e a gramática exegética do texto. Este é o ponto que precisamos considerar sempre que desejamos aplicar um ensino na vida da igreja a partir das Escrituras.
4.2 – Uma Regra de Conduta.
            O segundo aspecto que precisamos analisar nesta declaração confessional é que a Bíblia também é a nossa regra de prática ou conduta. Durante muito tempo se perguntou se os cristãos deveriam ter um manual de ética – e a resposta é um ressonante não! Isto porque a Bíblia já a nossa regra de conduta.
            Isto significa que a nossa ética e moralidade deve ser baseado naquilo que as Escrituras determinam que façamos; pois, toda conduta que esteja em desarmonia com as Escrituras deve ser corrigida, tratada e modificada. A Escritura não nos foi dada apenas para questões doutrinárias, mas também para questões práticas: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2 Timóteo.3.16-17 ).
            Todo o nosso comportamento e vida cristã devem ser baseados e alicerçados pela Palavra inerrante de Deus – ortodoxia e ortopraxia devem ser sempre andar jutos na nossa vida cristã.
Conclusão: A natureza das Escrituras nos mostra a grandeza de Deus em se comunicar com o seu povo. Revelando a santidade de sua mensagem, mostrando-nos que ela é de fato a sua palavra revelacional e por causa disso, vemos a coerência e harmonia entre os dois testamentos que nos conduz para uma vida prática na aplicação de nossa doutrina.





[1] COSTA, Herminstem Maia Pereira da. Raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p.287
[2] Para um estudo profundo deste assunto recomenda-se a leitura de: MACHEN, J. Gresham. Cristianismo e Liberalismo. Tradução: Denise Pereira Meister. São Paulo: Editora os Puritanos, 2011.
[3] Apud, SANTOS, Valdeci S. Anotações da Bíblia de Scofield sob uma ótica Reformada. In: FIDES REFORMATA, janeiro – junho, 2000, vol. V, n. 1, pp. 135 – 148.
[4] GREIDANUS, Sidney. O Pregador Contemporâneo e o Texto Antigo – Interpretando e Pregando Literatura Bíblica. Tradutor: Edmilson Francisco Ribeiro. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.211.