sábado, 16 de março de 2013

O JARDIM E O DESERTO RUGENTE. - Por David Chilton.


O JARDIM E O DESERTO RUGENTE.

Por: Rev. David Chilton
Tradução: Rev. João Ricardo Ferreira de França.

Então, o que poderia fazer Deus? Que mais poderia fazer, sendo Deus, exceto renovar sua imagem na humanidade, de maneira que, por meio  dela, o homem poderia chegar a conhecer-lhe uma vez mais? E como poderia se fazer isso como não foi por meio da vinda da própria imagem, nosso Salvador Jesus Cristo? Os homens não poderiam havê-lo feito, pois, somente tem sido feito a sua imagem; tampouco, podiam havê-lo feito os anjos, pois, não são imagens de Deus. A Palavra de Deus veio em sua própria pessoa, pois, era somente Ele, a imagem do Pai, o que podei recriar ao homem feito a sua imagem. Contudo, para recriar esta imagem, primeiro tinha que destruir a morte e a corrupção. Por conseguinte, assumiu um corpo humano, para que, nele, a morte pudesse ser destruída de uma vez por todas, e os homens pudessem ser renovados segundo a sua imgem.
Atanásio, On The Incarnation [13]
            Quando Deus criou a Adão, lhe pôs na terra, e lhe deu o domínio sobre ela. A terra é básica para o domínio; por conseguinte, a salvação involucra uma restauração da terra e propriedade. Ao anunciar seu pacto a Abraão, a primeira frase que Deus pronunciou foi uma promessa de terra (Gênesis 12.1) e cumpriu essa promessa completamente ao salvar a Israel (Josué 21.43-45). Por isso, as leis bíblicas estão cheias de referências a propriedade, as leis, e a economia; e é por isso que a Reforma deu tanta ênfase neste mundo, como também no mundo vindouro. O homem não é salvo livrando-o do que está ao seu redor. A salvação não nos resgata do mundo material, mas do pecado, e dos efeitos da maldição. O ideal bíblico é que cada homem tenha propriedade – um lugar onde possa ter domínio e governo sob Deus.
            As bênçãos do mundo ocidental têm ocorrido por causa do cristianismo e a liberdade resultante disto que os homens tem conseguido no uso e  o desenvolvimento da propriedade, bem como o cumprimento de seus chamados sob o mandato do domínio de Deus. O capitalismo  - o mercado livre – é produto de leis bíblicas, nas quais se lhe atribuí uma alta propriedade a propriedade privada, e condenam toda classe de roubos (incluindo o roubo por parte do Estado).
            Para os incrédulos economistas, professores, e funcionários, é um mistério porque o capitalismo não pode ser exportado. Considerando a obvia e provada superioridade do mercado livre em relação ao elevar o nível de vida de todas as classes sociais. Por que as nações pagãs não implementam o capitalismo em suas estruturas sociais? A razão é esta: A liberdade não pode ser exportada para uma nação que não tem mercado para o evangelho. As bênçãos do jardim não podem ser obtidas aparte de Jesus Cristo. A regra de ouro, que resume a Lei e os Profetas (Mateus 7.12) é o fundamento ético inescapável do mercado livre; e esta ética é impossível sem o Espírito Santo, que nos capacita a cumprir as justas exigências da lei de Deus (Romanos 8.4).
            Todas as culturas pagãs tem sido estaditas e tirânicas, porque um povo que rejeita a Deus se apresentará e submeterá suas propriedades a um ditador. (1º Samuel 8.7-20). Os homens ímpios querem as bênçãos do jardim, porém tratam de possuí-las por meios ilícitos, como fez Acabe com a vinha de Nabote (1º Reis 21.1-16), e o resultado é, como sempre, destruição (1º Reis 21.17-24). A posse legítima e livre da terra é o resultado da salvação: Deus levou seu povo a uma terra, e a dividiu entre eles como herança (Números 26.52-56); e como havia feito no Éden, Deus regulou a terra (Levítico 25.4) e as árvores (Levítico 19.23-25; Deuteronômio 20.19-20).
            Como temos visto, quando Deus expulsou a Adão e a Eva de sua terra, o mundo começou a converter-se em um deserto (Gênesis 3.17-19). Desde este ponto, a Bíblia começa a desenvolver um tema da terra versus o deserto, no qual o povo de Deus, obediente e redimido, e se vê herdando uma terra que é segura e abundante, enquanto que aos desobedientes são amaldiçoados ao ser expulsos para um deserto. Quando  Caim foi julgado por Deus, se lamentou: “Ele aqui me lança hoje da terra, e de tua presença me esconderei, e serei errante e estrangeiro na terra” (Gênesis 4.14). E tinha razão, como o registra a Escritura: “Retirou-se Caim da presença do SENHOR e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden.” (Gênesis 4.16). Node significa errante: Caim foi o primeiro nômade, que vagava sem encontrar nenhum destino.
            De maneira similar, quando o mundo inteiro se tornou ímpio, Deus disse: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito.” (Gênesis 6.7), e assim o fez, por meio do dilúvio – deixando vivos somente a Noé e a sua família na arca (que Deus fez repousar, diga-se de passagem, sobre uma montanha; Gênesis 8.4). Os ímpios foram lançados na terra, e o povo do pacto a repovoou.
            Novamente, os ímpios trataram de construir seu próprio “jardim”, a torre de Babel. Tratavam de fazer-se um nome – Se definir em termos de seus próprios modelos de rebeldia – e evitar ser espalhados da terra (Gênesis. 11.4). Porém o homem não pode construir o jardim sob suas próprias condições. Deus é o Definidor, e Ele é o único que nos pode dar segurança. A própria intenção do povo de Babel para evitar sua destruição na a realidade a precipitou. Deus confundiu as suas línguas – não lhes serviram para “nomear” nada! – e os espalhou da terra (Gênesis 11.8-9).
            Em flagrante contraste, o capítulo seguinte registra o pacto de Deus com Abrão, no qual Deus promete levar Abrão a uma terra, e engrandecer seu nome (Gênesis 12.1-2). Como garantia adicional e lembrança de seu pacto, Deus até mudou o nome de Abrão para Abraão, em termos de chamado predestinado. Deus é nosso definidor, somente Ele nos dá nosso nome, e “chama as coisas que não são, como se fossem”(Romanos 4.17). Por isso, ao ser batizados no nome de Deus (Mateus 28.19), somos redefinidos como o povo vivente de Deus, livres em Cristo desde nossa morte em Adão (Romanos 5.12-6.1-23). A circuncisão desempenhava a mesma função no Antigo Testamento, que é a razão pela qual as criancinhas recebiam oficialmente seu nome quando eram circuncidados (Consultar Lucas 2.21). Na salvação, Deus nos trazer de volta ao Éden e nos dá um novo nome (Apocalipse 2.17; consultar Isaías 65.13-25).
            Quando o povo de Deus se voltou desobediente quando estava a ponto de entrar na Terra Prometida, Deus lhe castigou fazendo que  vagasse pelo deserto até a geração inteira dos desobedientes desparecesse (Números 14.26-35). Logo, Deus se voltou e salvou a seu povo da “rugente solidão do ermo ” (Deuteronômio 32.10), e lhes levou a uma terra da qual fluía leite e mel (outra sutil recordação do Éden, diga-se de passagem: o leite é uma forma mais nutritiva da água, e o mel procede das árvores). O povo obediente de Deus nunca tem sido nômade. Ao contrário, é notável por sua estabilidade, e tem domínio. É verdade que a Bíblia chama-nos de peregrinos (Hebreus 11.13; 1 Pedro 2.11), porém, disso se trata precisamente: somo peregrinos, não vagabundos. Um peregrino tem um lugar, um destino. Na redenção, Deus nos salva de sermos errantes, e nos recolhe em uma terra (Salmos 107.1-9). Um povo disperso e sem teto não pode ter domínio. Quando os puritanos abandonaram a Inglaterra, não vagaram pela terra; Deus lhes levou a uma terra e lhes converteu em governantes e, ainda que o fundamento que construíram se tem corroído de grande forma, todavia está conosco uma grande parte conosco depois de uns 300 anos. ( o que vão dizer as pessoas daqui a 300 anos das conquistas do evangelismo atual, superficial e que bate em retirada?)
            As pessoas se tornam nômades por causa da desobediência (Deuteronômio 28.65). Ao funcionar a maldição na história, ao apostatar a civilização, o nomadismo se estende, e o deserto aumenta. E, ao estender-se a maldição, a água seca-se. Desde a queda, a terra já não é regada principalmente por mananciais. Em vez disto, Deus nos envia chuva (a chuva é muito mais fácil de abrir e fechar em um instante do que os mananciais e os rios). A retenção da água – o que converte a terra em um deserto ressecado – está relacionada mui estreitamente com a maldição (Deuteronômio 29.22-28). A maldição se descreve também em termos de que o povo desobediente é desarraigado da terra (Deuteronômio 29.28), em contraste com o fato de que Deus estabelece a seu povo na terra (Êxodo 15.7). Deus destrói as raízes de uma terra e cortando o suprimento de água: a seca é considerada na Escritura como instrumento principal (e efetivo) para o castigo nacional. Quando Deus fecha o suprimento de água, converte a terra em algo completamente oposto ao Éden.
            A História de Sodoma e Gomorra é uma espécie de história encapsulada do mundo neste sentido. Descrita uma vez como o jardim do Éden em sua beleza e abundância (Gênesis 13.10), se converteu, por meio do juízo de Deus, em “um hermo abrasado, de enxofre e sal, onde nada plantava-se,  nada brotava, e não crescia nenhuma vegetação” (Deuteronômio 29.23). Sodoma e Gomorra estavam situadas na área que agora se conhece como o Mar Morto – e se chama morto por uma  boa razão: nada pode viver ali. Os depósitos químicos (sal, potássio, magnésio, e outros) constituem 25% da água como resultado do juízo de Deus sobre a terra. Exceto onde a água flui até ela (e uns poucos mananciais isolados na área), a terra é completamente árida. É agora  o mais distante possível do Éden, e serve como representação do mundo depois da maldição: o Éden se acha convertido em deserto.
            Porém,  isso não é tudo o que se nos diz sobre esta área. Na visão de Ezequiel do templo restaurado (também sobre um monte, Ezequiel 40.2), ele vê a água da vida fluindo até o oriente desde o umbral até o Mar Morto e curando suas águas, resultando em “uma grande multidão de peixes” e exuberante vegetação (Ezequiel 47.8-12). Não devemos olhar o mundo com olhos que só veem maldição; devemos ver com os olhos da fé, iluminados pela Palavra de Deus para ver o mundo como arena de seu triunfo. A história não termina com o deserto. A grande escala, a história mundial será a de Sodoma: primeiro um jardim, formoso e frutífero; logo depois, corrompido até converter-se em um deserto de morte por meio do pecado; finalmente, restaurado a sua primitiva abundância edênica. “O deserto e a terra se alegrarão; o ermo exultará e florescerá como o narciso.” (Isaías 35.1 ARA).
Os aflitos e necessitados buscam águas, e não as há, e a sua língua se seca de sede; mas eu, o SENHOR, os ouvirei, eu, o Deus de Israel, não os desampararei. Abrirei rios nos altos desnudos e fontes no meio dos vales; tornarei o deserto em açudes de águas e a terra seca, em mananciais. Plantarei no deserto o cedro, a acácia, a murta e a oliveira; conjuntamente, porei no ermo o cipreste, o olmeiro e o buxo, para que todos vejam e saibam, considerem e juntamente entendam que a mão do SENHOR fez isso, e o Santo de Israel o criou.
 (Isaías 41.17-20 ARA)
            Esta, pois, é a direção da história, no que pode chamar-se o “primeiro rapto” – Deus desarraiga gradualmente da terra aos incrédulos e as culturas incrédulas, e leva a seu povo à plena herança da terra.
            No entanto, não estou negando o ensino bíblico de que o povo de Deus algum dia se encontrará com o Senhor no ar em ocasião de seu regresso (1ª Tessalonicenses 4.17); Mas a moderna doutrina do rapto[1] é muitas vezes uma doutrina de fuga do mundo, na que os cristãos se lhes ensina a anelar a fuga do mundo e seus problemas, mas bem que anelar o que a Palavra de Deus nos promete: Senhorio. Quão comum é ouvir dizer aos cristãos quando enfrentam problemas: “Espero que o arrebatamento ocorra logo!”. Ainda pior é a resposta que é também demasiado comum: A quem lhe importa? Não temos que fazer nada, porque, de todos os modos, o arrebatamento vem rapidamente!”. A pior de todas as atitudes de alguns de que todo trabalho para fazer deste um mundo melhor é absolutamente errôneo porque “melhorar a situação irá demorar a Segunda Vinda!.” Grande parte da moderna doutrina do rapto [arrebatamento] deveria ser reconhecida pelo que é na realidade: um perigoso erro que está ensinando ao povo de Deus a esperar a derrota em vez da vitória.
            E certamente, é um ponto de vista evangélico mundial é que “a terra é e sua plenitude são do diabo” – que o mundo pertence a Satanás, e que os cristãos só podem esperar a derrota até que regresse o Senhor. E essa é exatamente a mentira que Satanás quer que os cristãos creiam. Se o povo de Deus crer que o diabo está ganhando, seu trabalho é muito  mais fácil. Que faria se os cristãos deixassem de retroceder e começassem a avançar contra ele? Tiago 4.7 nos diz o que o diabo faria: fugiria de nós! Assim que, por que não está o diabo fugindo de nós nesta época? Por que estão os cristãos a mercê de Satanás e seus servos? Por que não estão os cristãos conquistando reinos com o evangelho, como o fizeram nos tempos passados? Porque os cristãos não estão resistindo ao diabo! Pior ainda, seus pastores e seus líderes lhes estão dizendo não resistam, mas que retrocedam! Os líderes cristãos tem colocado Tiago 4.17 ao reverso, e na realidade estão ajudando e confortando ao inimigo porque, de fato,  estão dizendo ao diabo: “Resiste a igreja, e fugiremos de ti!”. E Satanás está falando. Assim que, quando os cristãos vem que estão perdendo terreno em todas as frentes, acabam considerando isso como uma “prova” de que Deus tem prometido dar domínio a seu povo. Porém a única coisa que isto prova é que Tiago 4.7 é verdade, depois de tudo, incluindo o “lado contrário da moeda”, a saber, que se você não resiste ao diabo, ele não fugirá de você.
            O que temos que lembrar é que Deus não “arrebata” aos cristãos para escaparem do conflito – mas “arrebata” aos não cristãos! De fato, o Senhor Jesus orou para que não fossemos “arrebatados”:  “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal.” (João 17.15 ARA). E esta é a constante mensagem da Escritura. O povo de Deus herdará todas as coisas, e os ímpios serão deserdados e expulsados da terra. “Porque os retos habitarão a terra, e os íntegros permanecerão nela. Mas os perversos serão eliminados da terra, e os aleivosos serão dela desarraigados.” (Provérbios  2.21-22 ARA). “O justo jamais será abalado, mas os perversos não habitarão a terra.” (Provérbios. 10.30). Deus descrevia a terra de Canaã dizendo que havia sido “contaminada” pelos abomináveis pecados de sua população pagã, e que a terra mesma “vomitou seus habitantes”; e advertiu a seu povo que não imitasse aquelas abominações pagãs, “para que a terra não lhes vomite a vocês também” (Levítico 18.24-28; 20.22). Usando a mesma linguagem edênica, o Senhor adverte a igreja de Laodicéia contra o pecado, e a ameaça: “Te vomitarei de minha boca” (Apocalipse 3.16). Na parábola do trigo (os piedosos) e as cinzas (os ímpios) – e observe as imagens edênicas até na forma em que selecionas as ilustrações – Cristo declara que recolherá primeiro as cinzas para ser destruída; e o trigo é “arrebatado” mais tarde (Mateus 13.30).
            “A riqueza do pecador está guardada para o justo”(Provérbios. 13.22). Este é o modelo básico da história ao salvar Deus a seu povo e dar-lhe domínio. Isto é o que Deus fez com Israel: ao salvar-lhe, lhe levou a terras já colonizadas, e herdaram cidades que já haviam sido construídas (Salmos 105.43-45). Em certo sentido, Deus abençoa a esses não pagãos – somente para que possam trabalhar para sua própria condenação, enquanto constroem uma herança para os piedosos (Consultar Gênesis 15.16; Êxodo 4.21; Josué 11.19-20) Então, Deus lhes faz em pedaços e dá a seu povo o fruto do trabalho deles. Por isso, não é necessário que nos preocupemos pelo que fazem o mal, porque nós herdaremos  a terra (Salmos 37). A palavra hebraica para salvação é yasha que significa trazer a um espaço grande, amplo e aberto – e na salvação, Deus faz justamente isso: dá-nos o mundo, e o converte no jardim do Éden.









[1] Nota do Tradutor: Chilton aqui se refere àquela doutrina do arrebatamento secreto ensinada pelo sistema distpensacionalista.