sexta-feira, 21 de março de 2014

CRISTO O SIGNIFICADO DA HISTÓRIA - INTRODUÇÃO

CRISTO O SIGNIFICADO DA HISTÓRIA
Por: Rev. Hendrikus Berkhof
Tradução: Rev. João Ricardo Ferreira de França.
INTRODUÇÃO
“Quando já não podemos encontrar significado na história significa que não entendemos a nós mesmos”
G. Van der Leeuw, De Zin der Geschiedenis, Groningen, 1935, p.5.
Constantemente alguns nos asseguram que vivemos em era apocalíptica. A pergunta é se aqueles que dizem isto sabem o que querem dizer. Se é algo mais que a afirmação de que esta era Põe diante de nós surpresa e temores que nunca se havia visto antes, então, isto deve significar que vivemos em uma época que revela mais que qualquer outra época anterior (apocalipse significar ‘manifestar, deixar descoberto’); um tempo em que as grandes forças que movem a história humana são reveladas estando assim despojadas de seu mistério; um tempo que não tem fim. De modo que, com esta segurança, estamos tratando com um dos muitos sopros de vida, expressados de uma forma tão livre, que comprovam quanto de nosso mundo Ocidental ainda vive a partir de sua herança cristã, e quanto nos orientamos inconscientemente por ela quando buscamos uma via de escape que nos livre dos eventos que nos oprimem. Provavelmente esta ultima frase seja todavia, demasiadamente afável para expressar o verdadeiro problema. Nossa  geração se encontra estrangulada pelo temor: temor ao homem, o seu futuro, à direção na que estamos sendo empurrados contra a nossa vontade e desejo. E disto surge um clamor pedindo iluminação com respeito ao significado da existência da humanidade, e com respeito ao objetivo a que estamos sendo conduzidos. É um clamor por uma resposta para a antiga pergunta do significado da história.
             A Igreja de Cristo não só está ciente de tal clamor, mas ela também sabe uma resposta divina. Deve colocar-se ao lado do mundo e deve atrever-se a apontar a direção da resposta. A questão, no entanto, é se será capaz de fazer isto. Certamente se encontra de pé ao lado do mundo, ou inclusive completamente nele, pois, ela também está presa pelo medo. Porém só pode ser ajudada sólida e real quando é capaz de apresentar uma resposta ainda em meio de seus piores temores e os de outros. Pode fazer realmente isto por seu livro, a Bíblia, está cheia de luz, precisamente para estes abismos da história. Ali se encontram compilados os matérias de construção do que podemos chamar de uma teologia da história.
            Porém, muitos séculos a Igreja e seus teólogos apenas não têm notado estes materiais. Tem-se dito poucas palavras acerca dos assim chamados ‘sinais do fim’ em uma passagem quase escondida na dogmática, em alguma parte muito próxima do final. Geralmente a passagem tem sido muito sombria e tem  tratado em sua totalidade, ou quase totalmente, com o crescente mal do homem e a chegada do anticristo. Algumas observações nessa seção somente assinalam a possibilidade de que, o que foi dito em toda a teologia, poderia tocar o coração da história do mundo, incluindo a história do presente. Porém, o caráter quase oculto da passagem, o breve tratamento que se lhe dava, e a localização dos fatos em um futuro incerto, tem resultado em uma situação na que estes “sinais do fim” tem permanecido como pedras perdidas em um campo dogmático, e os materiais da construção necessários para uma teologia da historia ficaram sem ser reunidos.
            No entanto, isso não inclui todos aqueles que se chamam a si mesmo de cristão. Ao longo de toda a história da igreja a busca de uma teologia da história tem sido um tema importante para algumas seitas e para alguns movimentos similares as seitas. Encontra-se aqui uma resposta detalhada e clara que satisfez não apenas fé, mas também a curiosidade e o intelectualismo primitivo. Isto aconteceu enquanto a igreja oficial não tinha nenhuma resposta em absoluto.
            Por esta razão, a relação entre as igrejas e as seitas também tem sido infrutífera. As seitas tem racionado contra a atitude fria da Igreja e as questões associadas com o futuro e a história, e as igrejas tem reacionado contra as fantasias, e as vezes, contra os arrebatamentos revolucionários que se tem posto em evidência entre as várias seitas. Cada resposta tem exigido uma nova resposta e as questões para uma teologia da história têm sido abordadas, quer sem qualquer aproximação, ou de  uma forma fantástica e superficial. Parece que não tem havido uma terceira possibilidade.
            Pode-se dizer, uma vez que existem apenas duas alternativas é melhor para escolher o primeiro. Porém, o não dar atenção é tão desastroso como oferecer uma atenção errada. Muitos cristãos, que, apesar dos enigmas e tristezas de sua vida pessoal não perderam por um momento a segurança do amor e orientação de Deus, se sentem tão impotentes e incapazes como crianças perdidas que sofrem a ausência do Pai, quando lêem manchetes nos jornais e periódicos. A Igreja de Cristo do século vinte [ vinte e um – NT] é espiritualmente incapaz de resistir contra todas as rápidas mudanças que sucedem ao seu redor porque não tem aprendido a ver a história desde a perspectiva do reinado de Cristo. Por esta razão, pensa em termos totalmente seculares com respeito aos eventos do seu próprio tempo. se vê invadida pelo temor de uma forma mundana trata de libertar-se do temor. Neste processo Deus como algo parecido a um benfeitor improvisado que salva a brecha tem oralmente.
            Afortunadamente, há sinais de mudança. Há somente pequenas nuvens, do tamanho de uma mão, porém são visíveis. A experiência da Segunda Guerra Mundial tem ajudado a dar um impulso nesta direção. O documento do Sínodo Reformado, Fundamenten em Perspectieven van Belijden( Fundamentos e perspectivas da fé), tem ido mais além das confissões do século XVI ao incluir um artigo acerca da história (art.14). E o Concílio Mundial de Igrejas teve como seu tema para a conferência de Evaston em 1954. ‘ Cristo – a esperança para o mundo.’ O bem conhecido relatório com respeito a este tema que foi aceito pela assembleia contém um parágrafo intitulado ‘A Esperança Cristã e o Significado da História’. Estas coisas são sintomas em sim mesmo e também motivos de contentamento, ainda assim o conteúdo em si não é tão satisfatório neste ponto, particularmente no caso do segundo documento. Porém tão somente temos começado. Será necessário que haja muita reflexão sobre este assunto. Só então, a nossa conversa sobre o reinado de Cristo na história, lentamente, começará a ter significado, porque se aproximará ainda mais  para a plenitude e certezas das quais se  fala no Novo Testamento.
            É meu desejo e esperança poder ajudar neste processo com este livro. Não espero nada menos, e minha expectativa não excede isso, como tive a forte impressão de que nós temos aqui um campo teológico não cultivado. No entanto, este é o legado da história. Posto que a dogmática se manteve sistematicamente separada dos problemas apresentados pelos livros apocalípticos da Bíblia, me vi obrigado a encontra meu próprio caminho sem a ajuda desta tradição. Por esta razão, entre outras, permaneci tão próximo como me foi possível da teologia bíblica. Isso não elimina o fato de que não se podem fazer pronunciamentos neste campo, se você não está também preparado para se aproximar de uma filosofia cristã da história. Quem teme o último não pode fazer justiça aos pronunciamentos bíblicos. Mas por isso mesmo tornou-se um maravilhoso livro em que a exegese, teologia bíblica dogma, e a filosofia mudam de lugares, e às vezes são interligadas. Para alguém como eu, que não sou um especialista em nenhum destes campos, esta tem sido uma empreitada muito perigosa. Felizmente, alguns estudiosos têm se mostrado dispostos a ler alguns capítulos e apontar algumas correções. Para eles eu  quero expressar minha sincera gratidão.

            A Teologia é uma forma de amar a Deus com a mente. Por esta razão não é uma doutrina secreta, mas um assunto público. De modo que tenho considerado como uma tarefa satisfatória e auto-imposta ao escrever de tal maneira que aqueles que não sejam teólogos com uma orientação intelectual geral possam ler este livro. Confio em que muitos deles queiram fazê-lo, pois é importante que o tema discutido neste livro comece a tomar a vida de toda a Igreja de Cristo, como um pão sumamente necessário. Pode ser que inclusive aqueles que se encontram entre as seitas possam desejar se familiarizar-se um pouco com este livro. E o acharão inadequado, e não estarão de acordo com muito do que há nele, porém talvez a este como sendo o trabalho de alguém que tenha prestado atenção para as chamadas feitas para a porta da igreja. E possa ser que haja uma ligeira possibilidade de que lhes possa conduzir a perguntar-se de onde se acham os elementos reativos ao seu próprio ensino. Pelo menos, confio que este livro possa ser uma pequena fonte através do qual a igreja e as seitas possam encontrar caminho para um novo diálogo.  

quarta-feira, 19 de março de 2014

OS ÚLTIMOS DIAS.


OS ÚLTIMOS DIAS.
 Por: Rev. David Chilton
Tradução: Rev. João Ricardo Ferreira de França.

 

Quando começou as pessoas a abandonar o culto aos ídolos, desde que a mesma Palavra de Deus veio morar entre os homens? Quando cessaram os oráculos e ficaram vazios de significado, entre os gregos e em todas as partes, desde que o Salvador se revelou a si mesmo na terra? Quando começaram a ser considerados meros mortais aqueles a quem os poetas chama deuses e heróis, desde quando o Senhor tomou os despojos da morte e preservou incorruptível o corpo que havia tomado, levantando-o entre os mortos? Ou quando caiu em desgraça a falsidade e a loucura dos demônios, mas quando a Palavra, o poder de Deus, o Mestre de todos estes também, condescendeu por causa da fraqueza do gênero humano e apareceu na terra? Quando começou a ser rejeitada a prática e a teoria da magia senão quando se manifestou aos homens o Verbo divino? Em uma palavra quando fez a sabedoria dos gregos estupidez, senão quando a verdadeira sabedoria de Deus se revelou na terra? Nos tempos antigos, o mundo inteiro e todo lugar nele se perderam pelos cultos aos ídolos, e os homens pensaram que os ídolos eram os únicos deuses que existiam. Mas agora em todo o mundo os homens estão abandonando o termos aos ídolos e refugiando-se em Cristo, e ao adorá-lo como Deus, por meio dEle, chegam também a conhecer o Pai, o qual antes não haviam conhecido.

Atanásio, On the Incarnation [46]

            Como começamos a ver no capítulo anterior, o período que se descreve na Bíblia como “últimos dias” (ou “o último tempo” ou “a última hora”) é o período entre o nascimento de Cristo e a destruição de Jerusalém. A igreja primitiva estava vivendo no fim da era antiga e o começo da nova. Este período inteiro deve ser considerado como o tempo do primeiro advento de Cristo. Tanto no Antigo Testamento como no Novo, a prometida destruição de Jerusalém é considerada uma aspecto da obra de Cristo, conectada intimamente com sua obra de redenção. Sua vida, morte, ressurreição, ascensão, o derramamento do  Espírito, e o juízo de Jerusalém são todas partes de sua única obra de anunciar seu reino e criar seu novo templo (veja-se, por exemplo, como conecta Daniel 9.24-27 a expiação coma a destruição do templo).

            Observemos como a Bíblia usa estas mesmas expressões sobre o fim da época. Em 1ª Timóteo 4.1-3. Paulo adverte:

Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade;

 (1ª Timóteo 4.1-3 ARA)

            Estava Paulo falando dos “últimos tempos” que ocorreriam milhares de anos mais tarde? Por que advertiria Paulo a Timóteo de eventos que Timóteo e seus tataranetos, e cinquenta ou mais gerações de descendentes, jamais viveriam para ver? Na realidade, Paulo disse a Timóteo: “Se instruíres os irmãos nestas coisas, serás um bom ministro de Jesus Cristo”. (1ª Timóteo 4.6). Os membros da congregação de Timóteo necessitavam saber o que ocorreriam nos “últimos dias”, porque eles seriam afetados pessoalmente por estes eventos. Em particular, necessitavam da certeza de que a apostasia vindoura era parte do padrão geral dos eventos que conduziriam ao fim da antiga ordem e o pleno estabelecimento do reino de Cristo. Como podemos ver  em passagens como Colossenses 2.18-23, as “doutrinas de demônios” sobre as quais Paulo advertia eram correntes durante o primeiro século. Os “últimos tempos” já estavam ocorrendo. Isto fica claro na última declaração de Paulo a Timóteo:

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé;

 (2ª Timóteo 3.1-8 ARA)

            As mesmas coisas que Paulo disse que sucederiam nos “últimos dias” estavam sucedendo enquanto ele escrevia, e Paulo simplesmente estava advertindo a Timóteo sobre o que devia esperar ao se aproximar a época de seu clímax. O anticristo estava começando a levantar a cabeça.

            Outros escritores do Novo Testamento compartilham deste perspectiva com Paulo. A carta aos hebreus começa dizendo que Deus “nestes últimos dias nos tem falado por seu Filho” (Hebreus 1.2); os escritor segue adiante, e demonstra que “agora, na consumação dos séculos, se apresentou uma vez para sempre pelo sacrifício de si mesmo para aniquilar o pecado” (Hebreus 9.26). Pedro escreveu que Cristo  “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.” (1ª Pedro 1.20-21 ARA). O testemunho apostólico é inconfundivelmente claro: Quando Cristo veio, os “últimos dias” chegaram com Ele. Veio para anunciar a nova era do reino de Deus. A época antiga estava terminando, e seria completamente abolida quando Deus destruísse o templo.

Desde Pentecostes até o Holocausto

            No dia de Pentecostes, quando o Espírito havia sido derramado e a comunidade falou em outras línguas, Pedro declarou a interpretação bíblica do evento:

Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

 (Atos  2.16-21 ARA)

            Já temos visto como o “sangue e o fogo e o vapor de fumaça” e os sinais no sol e na lua se cumpriram na destruição de Jerusalém. O que é crucial observar neste pondo é a afirmação precisa de Pedro de que os últimos dias haviam chegado. Contrariamente a algumas exposições modernas deste texto, Pedro não disse que os milagres de Pentecostes eram como o que Deus havia profetizado, ou que eram uma espécie de “proto-cumprimento” da profecia de Joel; Pedro disse que este era  cumprimento: “Isto é o que foi dito pelo profeta Joel”. Os últimos dias estavam aqui: O Espírito havia sido derramado, o povo de Deus estava profetizando e falando em línguas, e Jerusalém seria destruída com fogo. As antigas profecias estavam se revelando, e aquela geração não passaria antes que “todas estas coisas” houvessem cumprido. Por conseguinte, Pedro instou a seus ouvintes: “Salvai-vos desta geração perversa.” (Atos 2.40 ARA).

            Em relação com isto, devemos tomar nota da importância escatológica do dom de línguas. Em 1ª Coríntios 14.21-22, Paulo mostra que o milagre das línguas era o cumprimento da profecia de Isaías contra o rebelde Israel. Devido ao fato de que o povo do pacto estava rejeitando sua clara revelação, Deus advertiu que seus profetas lhes falariam em línguas estranhas, como expresso propósito de apresentar um testemunho final ao Israel incrédulo durante os últimos dias que precederiam a seu juízo:

Pelo que por lábios gaguejantes e por língua estranha falará o SENHOR a este povo, ao qual ele disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; mas não quiseram ouvir. Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será preceito sobre preceito, preceito e mais preceito; regra sobre regra, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem, se enlacem, e sejam presos. Ouvi, pois, a palavra do SENHOR, homens escarnecedores, que dominais este povo que está em Jerusalém. Porquanto dizeis: Fizemos aliança com a morte e com o além fizemos acordo; quando passar o dilúvio do açoite, não chegará a nós, porque, por nosso refúgio, temos a mentira e debaixo da falsidade nos temos escondido. Portanto, assim diz o SENHOR Deus: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra preciosa, angular, solidamente assentada; aquele que crer não foge. Farei do juízo a régua e da justiça, o prumo; a saraiva varrerá o refúgio da mentira, e as águas arrastarão o esconderijo. A vossa aliança com a morte será anulada, e o vosso acordo com o além não subsistirá; e, quando o dilúvio do açoite passar, sereis esmagados por ele. Todas as vezes que passar, vos arrebatará, porque passará manhã após manhã, e todos os dias, e todas as noites; e será puro terror o só ouvir tal notícia.

 (Isaías  28.11-19 ARA)

            O milagre de Pentecostes era uma mensagem impactante para Israel. Os israelitas sabiam o que isto significava. Era o sinal de Deus de que a Pedra Angular havia chegado, e de que Israel lhe havia rejeitado para sua própria condenação. (Mateus 21.42-44; 1ª Pedro 2.6-8). Era o sinal de juízo e reprovação, o sinal de que os apóstatas de Jerusalém estavam a ponto de “cair às espadas, e ser humilhados, amarrados e presos”. Os últimos dias de Israel haviam chegado: a antiga era havia terminado, e Jerusalém seria varrida por um novo dilúvio, para dar lugar a uma nova criação de Deus. Como disse Paulo, as línguas eram “sinal, não para os crentes, mas para os incrédulos” (1ª Coríntios 14.22) – um sinal para os incrédulos judeus do destino fatal que se lhes aproximava.

            A igreja primitiva esperava a chegada da nova era. Sabia que, com o fim visível do sistema do antigo pacto, a igreja seria revelada como o templo novo e verdadeiro; e a obra que Cristo veio executar seria levada a cabo. Este era um aspecto importante da redenção, e a primeira geração de cristãos esperava que este evento ocorresse durante sua vida. Durante este período de espera e severas provas, o apóstolo  Pedro lhes assegurou que estariam “protegidos pelo poder de Deus por meio da fé para alcançar a salvação que está preparada para ser manifestada nos últimos dias” ( 1ª Pedro 1.5). Estavam no próprio limiar do Novo Testamento.

Esperando o Fim.

         Os apóstolos e a primeira geração de Cristãos sabiam que estavam vivendo os últimos dias da era do antigo pacto. Esperavam ansiosamente sua consumação e plena entrada da nova era. Ao avançar do tempo e o intensificar dos “sinais do fim”, a igreja poderia ver que o dia do juízo se aproximava rapidamente; uma crise estava se assomando no futuro próximo, quando Cristo lhe libertaria “do presente século mau” (Gálatas 1.4). As declarações dos apóstolos estavam cheias desta atitude expectante, do seguro conhecimento de que este evento transcendental estava sobre eles. A espada da ira de Deus estava posta sobre Jerusalém, pronta para cair a qualquer momento. Porém os cristãos não deveriam temer, porque a ira vindoura não estava dirigida para eles, mas para os inimigos do evangelho. Paulo instou aos tessalonicenses a “esperar dos céus a seu Filho, o qual ressuscitou dentre os mortos, a Jesus, quem nos livra da ira vindoura” (1ª Tessalonicenses 1.10). Fazendo eco das palavras de Jesus em Mateus 23-24, Paulo enfatizou que o juízo eminente seria derramado sobre os judeus:

Tanto é assim, irmãos, que vos tornastes imitadores das igrejas de Deus existentes na Judéia em Cristo Jesus; porque também padecestes, da parte dos vossos patrícios, as mesmas coisas que eles, por sua vez, sofreram dos judeus, os quais não somente mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são adversários de todos os homens, a ponto de nos impedirem de falar aos gentios para que estes sejam salvos, a fim de irem enchendo sempre a medida de seus pecados. A ira, porém, sobreveio contra eles, definitivamente.

 (1ª Tessalonicenses 2.14-16 ARA).

            Os cristãos haviam sido advertidos, e por tanto, estavam preparados, mas o Israel incrédulo seria pego de surpresa:

Irmãos, relativamente aos tempos e às épocas, não há necessidade de que eu vos escreva; pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão. Mas vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse Dia como ladrão vos apanhe de surpresa; porquanto vós todos sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas. porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo,

(1ª Tessalonicenses 5.1-5,9 ARA)

            Paulo ampliou isso em sua segunda carta para a mesma igreja:

Se, de fato, é justo para com Deus que ele dê em paga tribulação aos que vos atribulam e a vós outros, que sois atribulados, alívio juntamente conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho).

 (2ª Tessalonicenses 1. 6-10 ARA)

            Claramente, Paulo não está falando da segunda vinda de Cristo no fim do mundo, porque a vinda da “tribulação” e “retribuição” estavam sendo dirigidas especificamente para aqueles que perseguiam aos cristãos de Tessalônica da primeira geração. O dia vindouro do juízo não era algo que estava a milhares de anos de distância. Estava próximo – tão próximo que o podiam ver. A maioria dos “sinais do fim” já existia, os inspirados apóstolos estimulavam à igreja a esperar o fim a qualquer momento. Paulo instava aos cristãos de Roma a que perseverassem na vida piedosa, “E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no princípio cremos. Vai alta a noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.” (Romanos 13.11-12 ARA). Assim como a antiga era havia se caracterizado pelo pecado, o desespero, a escravidão a Satanás, a nova era se caracterizaria mais e mais pela justiça e o governo universal do reino. Por que o período dos “últimos dias” foi também o tempo em que o reino celestial foi inaugurado na terra, quando “o monte santo” iniciou o seu crescimento dinâmico e todas as nações começaram a fluir na fé cristã, como os profetas haviam predito (ver Isaías 2.2-4; Miquéias 4.1-4). Obviamente, todavia há muita impiedade no mundo na atualidade. Porém o cristianismo tem ganhado batalhas gradual e constantemente desde os dias da igreja primitiva; e como os cristãos continuam fazendo guerra contra o inimigo, virá o tempo em que os santos possuirão o reino. (Daniel 7.22,27).

            Por isto Paulo pode consolar aos crentes assegurando-lhes que “o senhor está próximo” (Filipenses 4.5). De fato, o lema da igreja primitiva (1ª Coríntios 16.22)era Maranatha! Ora vem Senhor! Esperando a vinda da destruição de Jerusalém, o escritor de Hebreus advertiu aos que se sentiam tentados a “retroceder” ao judaísmo apóstata no sentido de que a apostasia só atrairia “uma horrenda expectação de juízo e fogo vingador que há de devorar aos adversários” (Hebreus 10.27).

            Pois conhecemos ao que disse:

Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará; todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma.

(Hebreus 10.30-31, 36-39 ARA)

            Os outros autores do Novo Testamento escreveram em termos similares. Depois de que Tiago advertiu aos crentes ricos que oprimiam aos cristãos das misérias que cairiam sobre eles, acusando-lhes de haver “acumulado tesouros para os últimos dias” (Tiago 5.1-6), alentou aos cristãos que sofriam:

Sede, pois, irmãos, pacientes, até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas. Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima. Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas.

 (Tiago 5.7-9 ARA)

            O apóstolo Pedro também advertiu a igreja de que “o fim de todas as coisas se aproxima”(1ª Pedro 4.7), e instou aos membros a viver na expectativa diária do juízo que viria em sua geração:

Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém! Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?

 (1ª Pedro 4.11-12,17 ARA)

            Os primeiros cristãos tiveram que suportar tanto uma severa perseguição das mãos do Israel apóstata como a traição dos anticristos em seu próprio seio, que tratavam de desviar à igreja até a seita judaica. Porém esta época de intensa perseguição e sofrimento atuava a favor da benção e a santificação dos próprios cristãos (Romanos 8.28-29); entretanto, a ira de Deus contra os perseguidores estava aumentando. Finalmente, chegou o fim, a ira de Deus derramou-se. Os que haviam causado tribulação à igreja foram lançados para a maior tribulação de todos os tempos. O maior inimigo da igreja foi destruído, e jamais voltaria a representar uma ameaça para a vitória final da igreja.

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 14 de março de 2014

O SURGIMENTO DO ANTICRISTO.

O SURGIMENTO DO ANTICRISTO.
Por:  Rev. David Chilton
Tradução: Rev. João Ricardo Ferreira de França 

            De acordo com as palavras de Jesus em Mateus 24, uma das crescentes características da época que procederia ao colapso de Israel seria a apostasia dentro da igreja cristã. Isto já foi mencionado antes, porém um estudo mais concentrado neste ponto lançará muita luz sobre um bom numero de pontos da discussão relacionados no Novo Testamento – pontos que geralmente tem sido mal compreendido.
            De modo geral, pensamos no período apostólico como uma época de evangelismo tremendamente explosivo e crescimento da i©greja, uma “idade de ouro”, quando assombrosos milagres ocorriam todos os dias. Esta imagem comum é substancialmente correta, porém sofre de uma flagrante omissão. Tendemos a descuidar do fato de que a igreja primitiva era o cenário do mais dramático broto da heresia da história mundial.
A grande apostasia.
            A igreja começou a ser infiltrada pela heresia no inicio de seu desenvolvimento. Atos 15 registra a reunião do primeiro concílio da igreja, que foi convocado para pronunciar decisão autorizada sobre o ponto em discussão da justificação pela fé (alguns mestres estavam advogando pela falsa doutrina de que se haveria de guardar as leis cerimoniais do Antigo Testamento para ser justificado). Contudo, o problema não morreu; anos mais tarde, Paulo teve que lidar com ele novamente, em uma carta às igrejas da Galácia. Como Paulo lhes disse, esta aberração doutrinária não era coisa de pouca importância, mas que afetava a própria salvação: era um “evangelho diferente”. Uma completa distorção da verdade, e equivalia a repudiar ao próprio Jesus Cristo. Usando alguns dos mais severos termos de sua carreira, Paulo pronunciou uma condenação sobre os “falsos irmãos” que ensinavam esta heresia (veja-se: Gálatas 1.6-9;2.5,11-21; 3.1-3; 5.1-12).
            Paulo também previu que as heresias infectariam as igrejas da Ásia Menor. Convocando aos presbíteros de Éfeso, lhe exortou a “olhar por eles mesmos e por todo rebanho” por que “eu sei que depois da minha partida entrarão no meio de vós lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E de vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas para arrastar após si os discípulos” (Atos 20.28-30). Tal como o havia predito Paulo, as falsas doutrinas se converteram em pontos de disputa de enormes proporções nestas igrejas. Até que o livro de Apocalipse fosse escrito, algumas destas igrejas haviam sido arruinadas quase completamente pelo avanço das doutrinas heréticas e a apostasia resultante disto (Apocalipse 2.2,6,14-16,20-24; 3.1-4,15-18).
            Porém o problema das heresias não limitava a nenhuma área geográfica nem cultural. Estava muito espalhado, e se tornara mais e mais o tema do conselho apostólico e da supervisão pastoral à medida que o tempo se passava. Alguns hereges ensinavam que a ressurreição final já havia ocorrido (2ª Timóteo 2.18), enquanto que outros afirmavam que a ressurreição era impossível (1ª Coríntios 15.12); alguns ensinavam doutrinas estranhas de asceticismo e culto aos anjos (Colossenses 2.8,18-23; 1ª Timóteo 4.1-3), enquanto que outros advogavam toda classe de imoralidades e rebeliões em nome da “liberdade” (2ª Pedro 2.1-3,10-22; Judas 4,8,10-13,16). Repetidas vezes, os apóstolos se encontraram pronunciando severas admoestações contra a tolerância de falsos mestres e “falsos apóstolos” (Romanos 16.17-18; 2ª Coríntios 11.3-4, 12-15; Filipenses 3.18-19; 1ª Timóteo 1.3-7; 2ª Timóteo 4.2-5), porque estes haviam sido a causa de deserções volumosas  da fé, e a extensão da apostasia estava aumentando a medida que o tempo passava (1ª Timóteo 1.19-20; 6.20-21; 2ª Timóteo 2.16-18; 3.1-9,13; 4.10,14-16) uma das últimas cartas do Novo Testamento, o livro de Hebreus, foi dirigido a uma comunidade cristã inteira quando estava a ponto de ocorrer uma deserção em massa de cristãos. A igreja cristã da primeira geração não só foi caracterizada pela fé e pelos milagres; também se caracterizou pela crescente impiedade, rebelião, e heresia dentro da própria comunidade cristã – tal como Jesus havia predito em Mateus 24.

O anticristo.
            Os cristãos tinha um termo especifico para esta apostasia. Chamavam-na de anticristo. Muitos escritores populares têm especulado sobre este termo, de modo geral estão deixando de considerar seu uso na Escritura. Em primeiro lugar, considere um fato que sem dúvida causará impacto em algumas pessoas: a palavra “anticristonunca ocorre no livro de Apocalipse. Nem uma vez sequer. Mas, o termo é usado rotineiramente pelos mestres cristãos como sinônimo da “besta” de Apocalipse 13. Obviamente, não há dúvidas de que a besta é um inimigo de Cristo, e que, por esta razão, é um “anti”Cristo nesse sentido; contudo,  o que quero dizer é que o termo anticristo usa-se em um sentido muito específico, e essencialmente não está relacionado com a figura conhecida como a “besta” e “666”.
            Um erro adicional ensina que “o anticristo” é um individuo específico; conectada com isto está à ideia de que “ele” é alguém que fará sua aparição no fim do mundo. O Novo Testamento contradiz ambas as ideias, da mesma forma que a primeira.
            Na realidade os únicos casos em que aparece o termo anticristo são os seguintes versículos nas cartas do apóstolo João:
Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora. Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai. Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar.
(1ª João  2.18-19, 22-23,  ARA)
Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro.
 (1ª João 4.1-6 ARA)
Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo. Acautelai-vos, para não perderdes aquilo que temos realizado com esforço, mas para receberdes completo galardão. Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más.
 (2ª João 7-11 ARA)
            Os textos citados acima compreendem todas as passagens bíblicas que mencionam a palavra anticristo, e delas podemos extrair várias conclusões importantes:
            Primeira, os cristãos já haviam sido advertidos da vinda do anticristo (1ª João  2.18; 4.3).
            Segunda, não havia apenas um, mas “muitos anticristos” (1ª João 2.18), por conseguinte,  o termo anticristo não pode ser simplesmente a designação de um indivíduo.
            Terceira, o anticristo já estava em operação, como escreveu João: “muitos anticristos têm surgido” (1ª João 2.18 ARA) “Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar”. (1ª João 2.26 ARA); “este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo.” (1ª João 4.3 ARA); “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, [...] assim é o enganador e o anticristo.” (2ª João 1.7 ARA). Obviamente, se o anticristo já estava presente no primeiro século, não era alguma figura que se levantaria no fim do mundo.
            Quarta, o anticristo era um sistema de incredulidade, particularmente a heresia de negar a pessoa e a obra de Cristo Jesus. Ainda que os anticristos aparentemente afirmavam pertencer ao Pai, ensinavam que Jesus não era o Cristo (João 2.22); junto com os falsos profetas (1ª João 4.1), negavam a encarnação (1ª João 4.3; 2ª João 7,9); e rejeitavam a doutrina apostólica (1ª João 4.6).
            Quinta, os anticristos haviam sido membros da igreja cristã, porém haviam apostatado (1ª João 2.19). Agora estes apóstatas tentavam enganar a outros cristãos, para distanciá-los da igreja completamente de Cristo Jesus (1ª João 2.26; 4.1; 2ª João 7,10).
            Juntando tudo isto, não podemos deixar de ver  que o anticristo é uma descrição tanto de um sistema de apostasia como dos apóstatas individuais. Em outras palavras, o anticristo era o cumprimento da profecia de Jesus de que viria um tempo de grande apostasia, quando “muitos hão de se escandalizar, trair e odiar uns aos outros; levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos.” (Mateus 24.10-11 ARA). Como disse João, os cristãos haviam sido advertidos da chegada do anticristo; e efetivamente, haviam sido advertidos da chegada do anticristo; e efetivamente, haviam surgido “muitos anticristos”. Durante um tempo, haviam crido no evangelho; mais tarde, haviam abandonado a fé, e haviam ido por ali procurando enganar aos outros, e se foi iniciando novas seitas ou, mais provavelmente, tratando de trazer para os cristão pra o judaísmo – a falsa religião que afirmava adorar ao Pai enquanto negava ao Filho. Quando a doutrina do anticristo se entende, encaixa perfeitamente com o resto do que nos ensina o Novo Testamento sobre a época da “última geração”.
            Um dos anticristos que afligiu a igreja primitiva foi Cerinto, líder de uma seita judaica do primeiro século. Considerado pelos pais da igreja como “o arque herege”, e identificado como um dos “falsos apóstolos” que se opunha a Paulo, Cerinto foi um judeu que ingressou na igreja e começou a atrair os cristãos para fora da fé ortodoxa. Ensinava que uma deidade menor, não é o Deus verdadeiro, havia criado o mundo (sustentando, como os gnósticos, que Deus era super “espiritual” para ocupar-se da realidade material). Logicamente, isto significava também a negação da encarnação, posto que Deus não assumiria um corpo físico e uma personalidade verdadeiramente humana. E Cerinto era consistente: declarava que Jesus havia sido meramento um ser humano ordinário, não nascido de uma virgem; que “o cristo” (um espírito celestial) havia descido sobre o homem Jesus quando ele foi batizado (permitindo-lhe realizar milagres), mas que o havia abandonado na crucificação. Também, Cerinto defendia uma doutrina da justificação pelas obras – em particular, a absoluta necessidade de observar as ordenanças cerimoniais do Antigo Pacto – para ser salvo.
            Também, Cerinto foi aparentemente o primeiro a ensinar que a segunda vinda anunciaria um reino de Cristo literal em Jerusalém durante mil anos. Ainda que isto não fosse contrário ao ensino apostólico do reino, Cerinto afirmava que um anjo lhe havia revelado esta doutrina (de modo similar ao de Joseph Smith, um anticristo do século dezenove, que mais tarde afirmaria haver recebido uma revelação angélica)
            Os verdadeiros apóstolos se opuseram severamente à heresia de Cerinto. Paulo admoestou as igrejas: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema”. (Gálatas  1.8 ARA). Na mesma carta, Paulo passou a refutar as heresias legalistas sustentadas por Cerinto. Segundo a tradição, o apóstolo João escreveu seu evangelho e suas cartas tendo em mente a Cerinto. (Também se nos diz que, ao entrar João no banho público, viu este anticristo diante dele. O apóstolo deu meia volta imediatamente e saiu correndo, enquanto exclamava: “Fujamos, antes que o prédio caia sobre nós; porque Cerinto, o inimigo da verdade está dentro!”).
            Voltando para as afirmações de João sobre o espírito do anticristo devemos notar que João dá ênfase a outro ponto adicional, é muito significativo: como Jesus predisse em Mateus 24, a vinda do anticristo é um sinal do “fim”. “Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora”. (1ª João 2.18 ARA). A conexão que a gente geralmente faz entre o anticristo e “os últimos dias” é bastante correta; porém o que geralmente se passa desapercebido é o fato da expressão “os últimos dias”, e termos similares, se usam na Bíblia para referir-se, não ao fim do mundo físico, mas aos últimos dias da nação de Israel, os “últimos dias” que terminaram na detruição do templo no ano 70 d.C. Isto também será uma surpresa para muitos; porém temos que aceitar o claro ensino da Escritura. Os autores do Novo Testamento usaram inquestionavelmente a linguagem dos “últimos tempos” quando falavam do período em que estavam vivendo, antes da queda de Jerusalém. Como temos visto, o apóstolo João disse duas coias sobre este ponto: A primeira delas, que o anticristo já havia chegado; e a segundo, que a presença do anticristo era prova de que ele e seus leitores estavam vivendo no “último tempo”. Em uma de suas cartas anteriores, Paulo havia tentado corrigir uma impressão errada concernente ao juízo vindouro sobre Israel. Os falsos mestres haviam instado contra os crentes e dizendo-lhes que o dia do juízo já estava sobre eles. Paulo lembrou aos cristãos o que já havia explicado antes: “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição,” (2ª Tessalonicenses  2.3 ACF)
            Contudo, para o final da época, enquanto João escrevia suas cartas, a grande apostasia – o espírito do anticristo, que o Senhor havia predito – agora era uma realidade.
            Judas, que escreveu um dos últimos livros do Novo Testamento, não nos deixa dúvida alguma sobre este pondo de debate. Pronunciando fortes condenações sobre os hereges que haviam invadido à igreja e estavam tratando de desviar aos cristãos da fé ortodoxa (Judas 1-16), ele lembra a seus leitores que eles haviam sido advertidos disto mesmo:
Vós, porém, amados, lembrai-vos das palavras anteriormente proferidas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: No último tempo, haverá escarnecedores, andando segundo as suas ímpias paixões. São estes os que promovem divisões, sensuais, que não têm o Espírito.
(Judas 1.17-19 ARA)
            Claramente, Judas considera que as advertências sobre os “bajuladores” se referem aos hereges de sua própria época – querendo dizer que seu próprio dia era o período do “último tempo”. Como João, Judas sabia que a rápida multiplicação dos falsos irmãos era um sinal do fim. O anticristo já havia chegado, e agora era o último tempo.






sábado, 8 de março de 2014

A VINDA NAS NUVENS

A VINDA NAS NUVENS
Por: Rev. David Chilton
Tradutor: Rev. João Ricardo Ferreira de França.

Se não ressuscitou, mas que todavia está morto, como é que põe em fuga, persegue e derruba aos falsos deuses, que os incrédulos creem que estão vivos, e aos maus espíritos que eles adoram? Onde Cristo é nomeado, a idolatria é destruída e a fraude dos maus espíritos está exposta; de fato, nenhum espírito dessa classe pode suportar o Nome, mas que se ouve o som dele. Esta é a obra do que vive; e mais que isso, é a obra de Deus.
Atanasio, On the Incarnation [30]
            Temos visto que o discurso de Jesus no Monte das Oliveiras, registrado em Mateus 24. Marcos 13, e Lucas 21, trata do “fim” – não do mundo, mas de Jerusalém e o templo; faz referência exclusivamente aos “últimos dias” da era do antigo pacto. Jesus falou claramente de seus próprios contemporâneos quando disse que “esta geração” veria “todas as coisas”. A “grande tribulação” teve lugar durante a terrível época de sofrimento, guerras, fomes, e assassinatos em massa que conduziu à destruição do templo no ano 70 d.C. O que parece apresentar um problema para esta interpretação, contudo, é o que Jesus disse posteriormente:
E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; e todas as tribos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus. (Mateus 24:29-31)
         Jesus parece estar dizendo que a segunda vinda ocorrerá imediatamente depois da tribulação. Ocorreu a segunda vinda no ano 70 d.C? Nós a perdemos? Primeiro, deixemos claro uma coisa logo de início: não há que ficar em torno dessa palavra, imediatamente. Significa imediatamente. Reconhecendo que a tribulação teve lugar durante  a geração que desde então vivia, também precisamos encarar o claro ensino da Escritura de que, qualquer coisa que Jesus esteja falando nestes versículos ocorreu imediatamente depois. Em outras palavras, estes versículos descrevem o que deve ter lugar no final da grande tribulação – o que forma seu clímax!
            Para entender o significado das expressões de Jesus nesta passagem, devemos entender o Antigo Testamento muito mais do que muita gente o entende hoje em dia. Jesus estava falando para um público que estava intimamente familiarizado com os mais obscuros detalhes da literatura do Antigo Testamento. Haviam ouvido ler e expor o Antigo Testamento por incontáveis de vezes durante suas vidas, e haviam memorizado longas passagens. As imagens e as formas de expressão bíblicas haviam formado sua cultura, seu ambiente, e seu vocabulário desde a mais tenra infância, e isto havia ocorrido por gerações. A diferença entre sua perspectiva e a nossa se pode ilustrar pelo fato de que, ainda que grande parte da discussão deste livro acerca do tema do paraíso provavelmente seja muito nova para você, haveria sido muito familiar para os discípulos.
            O fato é que, quando Jesus falou para os seus discípulos da queda de Jerusalém, usou linguagem profética. Havia uma “linguagem” de profecia reconhecível instantaneamente pelos que estavam familiarizados com o Antigo Testamento (algo do qual já temos abrangido em nosso estudo do Éden). Ao predizer Jesus o completo fim do sistema do antigo pacto – o qual era, em certo sentido, o fim de todo um mundo – Jesus falava dele como o haveria feito qualquer dos profetas, na linguagem comovedora do juízo do pacto. Consideraremos cada um dos elementos da profecia, vendo como o seu uso anterior pelos profetas do Antigo Testamento determinava seu significado no contexto do discurso de Jesus sobre a queda de Jerusalém. Lembre-se que nosso padrão final de verdade é a Bíblia, e a Bíblia somente.
O sol, a lua e as estrelas.
            Jesus disse que, ao fim da tribulação, o universo de derrubaria: A luz do sol e a lua se extinguiriam, as estrelas cairiam, as potências dos céus seriam abaladas. A base para este simbolismo está em Genesis 1.14-16, onde se diz que o sol, a lua e as estrelas (“as potências dos céus”) são “sinais” que “governam” o mundo. Mais tarde na Escritura, estas luzes celestiais se usam para falar das autoridades e governantes terrenos; quando Deus ameaçava em ir contra eles em juízo, usa-se a mesma terminologia do universo que cai para descrevê-lo. Profetizando a queda da Babilônia ante os medos no ano de 539 a.C., Isaías escreveu: “Eis que vem o Dia do SENHOR, dia cruel, com ira e ardente furor, para converter a terra em assolação e dela destruir os pecadores. Porque as estrelas e constelações dos céus não darão a sua luz; o sol, logo ao nascer, se escurecerá, e a lua não fará resplandecer a sua luz.” (Isaías 13.9-10 ARA)
            De maneira significativa, Isaías profetizou mais tarde a queda de Edom em termos de re-criação: “Todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se enrolarão como um pergaminho; todo o seu exército cairá, como cai a folha da vide e a folha da figueira.” (Isaías 34.4 ARA).
            O contemporâneo de Isaías, o profeta Amós, predisse a destruição de Samaria (722 a.C) quase da mesma forma: “Sucederá que, naquele dia, diz o SENHOR Deus, farei que o sol se ponha ao meio-dia e entenebrecerei a terra em dia claro.” (Amo 8.9 ARA).
            Outro exemplo é do profeta Ezequiel, que predisse a destruição do Egito. Deus disso isto por meio de Ezequiel: “Quando eu te extinguir, cobrirei os céus e farei enegrecer as suas estrelas; encobrirei o sol com uma nuvem, e a lua não resplandecerá a sua luz. Por tua causa, vestirei de preto todos os brilhantes luminares do céu e trarei trevas sobre o teu país, diz o SENHOR Deus.” (Ezequiel 32.7-8 ARA).
            Precisamos enfatizar que nenhum destes eventos ocorreu literalmente. Deus não tinha por intenção que ninguém colocasse um sentido literal nestas declarações. Contudo, poeticamente, todas estas coisas ocorreram de fato: pelo que diz respeito a estas nações ímpias “as luzes se apagaram”. Esta é simplesmente a linguagem figurada, que não nos surpreenderia se estivéssemos mais familiarizados com a Bíblia e apreciássemos seu caráter literário.
            Por conseguinte, o que Jesus está dizendo em Mateus 24, em terminologia profética reconhecível imediatamente por seus discípulos, é que a luz de Israel se apagaria; a nação do pacto deixaria de existir. Quando a tribulação terminara, o Antigo Israel desapareceria.

O sinal do Filho do Homem.
            A maioria das traduções modernas de Mateus 24.30 diz algo como isto: “E então o sinal do Filho do Homem aparecerá no céu [...]” Este é um erro de tradução, baseado, não no texto grego, mas nas errôneas suposições dos próprios tradutores sobre o tema desta passagem (acreditam que se está falando da segunda vinda). Uma tradução do texto grego, de forma intelinear, diz na realidade:
E então aparecerá o sinal do Filho do Homem no céu[1] [...]
            Como você pode ver, na tradução correta aparecem duas diferenças importantes: a primeira, o local de qual fala é o um céu, não só o firmamento; segunda, não é o sinal o que está no céu, mas que é o Filho do Homem o que está no céu. O que queremos dizer é simplesmente que este grande juízo sobre Israel, a destruição de Jerusalém e o templo, seriam o sinal de que Cristo Jesus está em seu trono no céu, a destra do Pai, governando as nações e trazendo vingança sobre seus inimigos. O cataclismo do ano 70 d.C., divinamente ordenado, revelou que Cristo havia tirado o reino a Israel e o havia dado a igreja; a desolação do antigo templo era o sinal final de que Deus havia abandonado e agora morava em um novo templo, a igreja. Todos estes são aspectos da primeira vinda de Cristo, partes cruciais da obra que veio levar a cabo por meio de sua morte, ressurreição e ascensão ao trono. É por isto pelo que a Bíblia fala do derreamento do Espírito Santo sobre a igreja e a destruição de Israel como o mesmo evento, porque estavam intimamente conectadas entre se teologicamente. O profeta Joel predisse tanto o dia de Pentecostes como a destruição de Jerusalém sem tomar alento:
E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias. Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o SENHOR prometeu; e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar.
 (Joel 2.28-32 ARA)
            Como veremos no capítulo 13, a inspirada interpretação de Pedro no texto de Atos 2 estabelece o fato de que Joel está falando do período desde o derramamento inicial do Espírito até a destruição de Jerusalém, desde o Pentecostes até o Holocausto. Para nós, é suficiente observar aqui que nesta passagem se usa a mesma linguagem de juízo. A interpretação comum e barata  de que as “colunas de fumaça” são nuvens em forma de cogumelo de explosões nucleares é uma distorção do texto, e uma interpretação completamente errada da linguagem profética da Bíblia. Igualmente teria sentido dizer que a coluna de fogo e fumaça durante o Êxodo era o resultado de uma explosão nuclear.
As nuvens do céu.
            De maneira apropriada, isto nos leva ao seguinte elemento da profecia de Jesus sobre a destruição de Jerusalém:
 “E então se lamentarão todas as tribos da terra, e verão ao Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória.” Aqui a palavra tribos se refere primeiro as tribos da terra de Israel; e o “lamento” provavelmente é nos dois sentidos. Primeiro, se lamentariam da tristeza pelo sofrimento e a perda de sua terra; segundo, se lamentariam finalmente arrependidos de seus pecados, quando se convertam de sua apostasia (ver. Capítulo 14).
            Porém, como é que veriam a cristo vindo sobre as nuvens? Os que já leram os capítulos 7 e 8 deste livro terão poucas dificuldades para responder a esta pergunta. Em primeiro lugar, durante todo o Antigo Testamento, Deus esteve vindo “nas nuvens”, para salvar a seu povo e destruir a seus inimigos: “pões nas águas o vigamento da tua morada, tomas as nuvens por teu carro e voas nas asas do vento”. (Salmos 104.3  ARA). Quando Isaías profetizou o juízo de Deus sobre Egito, escreveu: “Sentença contra o Egito. Eis que o SENHOR, cavalgando uma nuvem ligeira, vem ao Egito; os ídolos do Egito estremecerão diante dele, e o coração dos egípcios se derreterá dentro deles.” (Isaías 19.1 ARA). O profeta Naum falou de forma similar da destruição de Nínive por parte de Deus: “O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em poder e jamais inocenta o culpado; o SENHOR tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés.” (Naum 1.3 ARA).  O que Deus “venha nas nuvens do céu” é um símbolo bíblico quase comum de sua presença, seu juízo e sua salvação.
            Contudo, mais que isto, está o fato de que Jesus está se referindo a um evento específico relacionado com a destruição de Jerusalém e o fim do antigo pacto. Falou dele novamente durante seu juízo, quando o sumo sacerdote lhe perguntou se era o Cristo, e Jesus contestou: “Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu.” (Marcos 14.62; ver. Mateus 26.64). Obviamente, Jesus não ser referia a um evento milhares de anos no futuro. Falava de algo que seus contemporâneos – “esta geração” – viria durante sua vida. A Bíblia nos diz exatamente quando Jesus veio nas nuvens do céu:
“Ditas estas palavras, foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos”. (Atos 1.9  ARA).
“De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus”. (Marcos 16.19 ARA).
            Notamos no capítulo 8 que foi este evento, a ascensão à destra de Deus, o que Daniel havia previsto:
Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído.
 (Daniel 7.13-14 ARA)
            A destruição de Jerusalém era o sinal de que o Filho do Homem, o segundo Adão, estava no céu, governando ao mundo e dispondo-o para seus próprios fins. A sua ascensão, havia vindo nas nuvens do céu para receber o reino da parte de seu Pai; a destruição de Jerusalém era a revelação deste fato. Por conseguinte, em Mateus 24 Jesus não estava profetizando que viria literalmente nas nuvens do ano 70 d.C. (ainda que isto era certo figuradamente). Sua “vinda sobra as nuvens” literal, em cumprimento a Daniel 7, havia ocorrido 40 anos antes. Mas, no ano 70 d.C., as tribos de Israel viram a destruição da nação como resultado de haver Ele (Cristo) ter ascendido ao trono do céu para receber seu reino.


Juntar os escolhidos.
            Finalmente, é resultado da destruição de Jerusalém será que Cristo enviou seus “anjos” para juntar aos escolhidos. Não é isto o arrebatamento? Não. A palavra anjos significa simplesmente  mensageiros[2] (ver. Tiago 2.25), seja a sua origem celestial ou terrena; é o contexto que determina  se fala-se de criaturas celestiais ou não. Geralmente, a palavra significa pregadores do evangelho (ver. Mateus 1.10; Lucas 7.24; 9.52; Apocalipse 1-3). No contexto, há várias razões para supor que Jesus estava falando do evangelismo mundial e a conversão das nações que seguirá a destruição de Israel.
            O uso que Cristo faz da palavra juntar é significativo a este respeito. Literalmente, a palavra é um verbo que significa reunir na sinagoga; o significado é que, com a destruição do templo e o sistema do antigo pacto, o senhor envia seus mensageiros para que juntem seu povo escolhido em uma nova sinagoga. Na realidade, Jesus está citando Moisés, que havia prometido: “Ainda que os teus desterrados estejam para a extremidade dos céus, desde aí te ajuntará o SENHOR, teu Deus, e te tomará de lá.” (Deuteronômio 30.4 ARA). Nenhum dos dois textos tem nada a ver com o arrebatamento; ambos tem a ver com a restauração e o estabelecimento da casa de Deus, a congregação organizada de seu povo do pacto. Isto fica mais pungente até mesmo quando nós nos lembrarmos do que Jesus havia dito justamente antes deste discurso: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta” (Mateus 23.37-38 ARA).
            Devido ao fato de que Jerusalém apostatou e rejeito ser recolhida como em uma sinagoga sob Cristo, seu templo seria destruído, e se formaria uma nova sinagoga e um novo templo: a igreja. Claro que, o novo templo foi criado no dia de pentecostes, quando o Espírito Santo veio morar na igreja. Porém, o fato da existência do novo templo só seria óbvio quando o andaime do antigo templo e o sistema do antigo pacto fosse destruído. As congregações cristãs começaram imediatamente a chamar-se a si mesmas de “sinagogas” (que é a palavra usada em Tiago 2.2), enquanto que chamavam as reuniões judaicas de “sinagogas de Satanás” (Apocalipse 2.9; 3.9). Porém, viviam esperando o dia do juízo sobre Jerusalém e o antigo templo, quando a igreja seria revelada como o templo verdadeiro e a sinagoga verdadeira de Deus. Devido ao fato de que o sistema do antigo pacto havia “se tornado antiquado” estava “próximo a desaparecer” (Hebreus 8.13), o escritor de Hebreus lhes instava a ter esperança “não deixando de congregar-nos [como em um sinagoga], como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima”. (Hebreus  10.25; veja 2ª Tessalonicenses 2.1-2  ARA)
            A promessa do Antigo Testamento de que Deus “juntaria” [como em uma sinagoga] a seu povo sofre uma grande mudança no Novo Testamento. Em vez da forma simples da palavra, o termo usado por Jesus tem a preposição grega epi[3] como prefixo. Esta é uma expressão favorita do novo pacto, que intensifica a palavra original. Por conseguinte, o que Jesus está dizendo é que a destruição do templo no ano 70 d.C. o revelará vindo nas nuvens para receber seu reino; e exibirá a sua igreja diante do mundo como a plena, verdadeira e super sinagoga.











[1]Nota do Tradutor:   καὶ τότε φανήσεται τὸ σημεῖον τοῦ υἱοῦ τοῦ ἀνθρώπου ἐν οὐρανῷ (kai tote fanesetai to semeion tou hyou to anthropou en ouranô)
[2] Nota do Tradutor: O texto Grego diz [Tiago 2.25] -  “ὁμοίως δὲ καὶ Ῥαὰβ ἡ πόρνη οὐκ ἐξ ἔργων ἐδικαιώθη ὑποδεξαμένη τοὺς ἀγγέλους καὶ ἑτέρᾳ ὁδῷ ἐκβαλοῦσα;” – angelous = mensageiros, emissários.
[3] Nota do Tradutor: epi